No dia 9 de julho, trazemos à memória o início da Greve Geral de 1917. Um importante marco histórico na luta de classes brasileira, e sempre destacamos esse evento de luta, da nossa classe, na América Latina.
A carestia de vida avançava nos anos da Primeira Guerra Mundial e as condições de trabalho eram insalubres e violentas - literalmente, encarregados espancavam trabalhadoras e trabalhadores, principalmente crianças, que eventualmente dormissem ou desmaiassem durante as jornadas de trabalho que chegavam a 16 horas por dia com pouquíssima alimentação; e, além de tudo, o Estado subordinado aos interesses dos latifundiários e dos industriais, reprimiam violentamente qualquer tentativa de organização de classes.
Algumas greves pontuais aconteciam com maior visibilidade desde antes da guerra, mas com o agravo das condições materiais fez com que as tecelãs do Cotonifício Crespi, na Mooca, fossem as primeiras a cruzarem os braços, em junho de 1917. O movimento ganhou enormes proporções nas semanas seguintes, com greves em várias fábricas da cidade, tendo seu ápice em julho, com a visão das revolucionárias e revolucionários que greves pontuais não eram suficientes, e uma verdadeira greve geral era necessária para enfrentar Estado e patrões.
Em 9 de julho de 1917, o sapateiro anarquista José Ineguez Martinez, do grupo Jovens Incansáveis, era assassinado pela polícia em uma manifestação que exigia condições dignas de trabalho. A resposta ao crime foi uma mobilização ainda maior da classe trabalhadora, na maior greve geral que esse país já viu.
O sapateiro Martinez tinha apenas 21 anos, era de origem espanhola, e ligado às organizações sindicalistas revolucionárias da época, estratégia anarquista para o movimento popular daquele momento. Naquele 9 de julho, ele participava de um protesto na porta da fábrica Mariângela, no Brás, quando o ato foi atacado pela cavalaria da polícia. O trabalhador foi atingido com um tiro no estômago, levado para a Santa Casa, mas morreu no mesmo dia. Em 11 de julho acontecia seu funeral, no Cemitério do Araçá, que havia sido convocado na véspera pelos jornais operários como uma grande manifestação.
Os anarquistas, junto com outros setores do sindicalismo e com o protagonismo das mulheres grevistas, criaram o Comitê de Defesa Proletária. Trabalhadoras e trabalhadores exigiam jornada de trabalho de 8 horas por dia (com meio expediente aos sábados), fim da exploração do trabalho de menores de 14 anos, fim do trabalho noturno para mulheres e crianças, aumento salarial de 25%, direito de greve e reunião, redução de preços de alimentos, entre outras questões. Também eram pautas naquelas greves operárias a igualdade salarial entre homens e mulheres, licença depois do parto e o fim de abusos e assédios cometidos por encarregados contra as operárias.
As fotos dos comícios da época exibem poucas mulheres. Além do trabalho fabril, elas ainda se dedicavam ao trabalho reprodutivo em casa. Contudo, milhares de anônimas se mobilizaram naquelas semanas de 1917. Uma das principais figuras daquele período foi Maria Angelina Soares, tecelã e anarquista, que foi secretária da Liga Operária da Mooca e uma das fundadoras do Centro Feminino de Jovens Idealistas.
A organização dos trabalhadores, que já vinha sendo construída pelos anos, mostrou resultado no fortalecimento da greve. Estima-se que a greve chegou a ter a adesão de 100 mil trabalhadores; o fim da greve, ocorreu no dia 16 de julho. Em uma semana, através de muita luta, resistência e combatividade, conseguiram arrancar poder público, importantes conquistas, como o compromisso em reduzir os preços dos alimentos e em tirar medidas pela defesa de trabalhadores menores de 18 anos e das trabalhadoras de período noturno. Foi o início de um processo revolucionário: boa parte de São Paulo ficou sobre controle dos trabalhadores e a patronal, temerosa, foi colocada contra a parede.
VIVA A GREVE DE 1917
VIVA A LUTA DA CLASSE TRABALHADORA!
Para maiores informações sobre o protagonismo das mulheres na Greve Geral de 1917 recomendamos a leitura do livro "Companheiras: Mulheres Anarquistas em São Paulo (1889-1930)", de Samanta Colhado Mendes, disponível no site da Faísca Edições Libertárias.
