1º de Maio: 140 anos da revolta de Haymarket.

A origem do Primeiro de Maio está nas lutas dos trabalhadores na segunda metade do século 19. É nesta data que, em 1886, centenas de milhares de operárias e operários organizaram nos EUA uma greve massiva em defesa da jornada de trabalho de 8 horas diárias — desde 1866 a pauta era uma demanda da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Os protestos em Chicago enfrentaram forte repressão policial, e oito lideranças foram presas, a maioria anarquista. Quatro deles foram executados, e um quinto tirou a própria vida na prisão. Ficaram conhecidos como os Mártires de Chicago, e o Primeiro de Maio consolidou-se internacionalmente como um dia de mobilização e memória, dedicado à defesa dos direitos dos trabalhadores e à construção de uma nova sociedade baseada na justiça, igualdade e na solidariedade de classe.

Em um contexto eleitoral, torna-se ainda mais necessário reafirmar a independência das lutas populares e sindicais. O Primeiro de Maio não deve ser reduzido a um momento simbólico ou protocolar, nem apropriado como espaço de promoção eleitoreira. Trata-se de uma data histórica de mobilização, construída pela ação coletiva dos trabalhadores e trabalhadoras, e que deve permanecer vinculada às suas pautas concretas e às suas aspirações de formas próprias de organização.

Diante dos desafios atuais, iremos ocupar as ruas neste 1º de Maio de 2026 em torno de cinco eixos centrais de luta:

1) Reduzir a jornada — pelo fim da escala 6×1, contra o trabalho precário e a pejotização

A luta nas ruas e nos locais de trabalho pelo fim da escala 6×1 alcançou a institucionalidade, e pode ir à votação no congresso nacional. A redução da jornada, sem redução de salário, é pauta histórica da nossa classe, e essencial para melhorar a qualidade de vida de categorias mais precarizadas, que terão mais tempo para descanso, lazer e organização. É um momento oportuno para fazer avançar a pauta, mas é preciso mobilização. Parte do movimento que levantou a pauta se voltou inteiramente para a disputa parlamentar, e não se viu mais chamados a manifestações de rua — sem pressão popular, a escala 6×1 não será derrubada. Enquanto isso, o STF deve julgar neste ano um caso de pejotização com efeito geral, o que pode liberar ainda mais as contratações de trabalhadores como PJ, em vez de CLT, aprofundando a perda de direitos. O Primeiro de Maio pode ser o passo inicial para um novo impulso à luta contra a 6×1, contra a precarização do trabalho, e também no enfrentamento às empresas de entregas e transporte, representada na mobilização do Breque dos Apps.

2) Contra a carestia da vida — por valorização salarial e fortalecimento dos serviços públicos

A carestia da vida — o aumento contínuo do custo dos bens e serviços essenciais à sobrevivência, como alimentos, moradia, transporte e energia — tem impactado diretamente as condições de existência da classe trabalhadora. Quando o preço do que é necessário para viver cresce mais rápido que os salários, a maioria da população é empurrada para o endividamento e para a precarização das condições de vida. Esse processo não é apenas econômico, mas político, pois expressa uma forma de organização social baseada na lógica do lucro e da mercantilização das necessidades humanas, em oposição a uma sociedade orientada pelas necessidades coletivas e pela solidariedade social.

Nesse contexto, a inflação de itens básicos e o sucateamento dos serviços públicos associados a privatização — como saúde, educação, transporte e assistência social — ampliam desigualdades e limitam o acesso universal a direitos fundamentais. Para a nossa perspectiva, o enfrentamento da carestia exige fortalecer a organização e luta, ampliar o controle social sobre os recursos públicos e defender a prioridade pela vida e o bem-estar comum, e não os interesses de poucos. Isso significa lutar pela valorização permanente dos salários, por mecanismos de regulação e controle popular sobre preços essenciais, pelo investimento massivo em serviços públicos e de qualidade e pela construção de alternativas baseadas na autogestão e na solidariedade entre trabalhadores e comunidades.

3) Por moradia digna — contra a especulação imobiliária e pelo direito à cidade

O direito à moradia segue sendo um dos principais desafios sociais do país. O aumento contínuo dos preços de imóveis e aluguéis, impulsionado pela lógica especulativa do mercado imobiliário, dificulta o acesso ao teto digno para amplos setores da população. Muitas famílias enfrentam condições precárias ou vivem sob constante ameaça de despejo.

Reconhecemos o papel histórico das organizações populares e das ocupações urbanas como formas legítimas de luta pelo direito à moradia. Defendemos políticas habitacionais amplas que deem teto para todas as pessoas, utilização de imóveis ociosos para fins sociais que garantam a função social da propriedade. A cidade deve ser um espaço de convivência e direitos, e não um território de exclusão.

4) Pela paz em todo o mundo — contra a repressão e as guerras, em defesa do internacionalismo e da autodeterminação dos povos

A luta pela paz verdadeira é inseparável da luta por justiça social, liberdade e dignidade para a classe trabalhadora. Não pode haver paz onde predominam a exploração, a desigualdade e a violência institucional. No âmbito interno, é necessário enfrentar de forma organizada e solidária as práticas repressivas que atingem cotidianamente jovens e trabalhadores das periferias, bem como a criminalização dos movimentos sociais, das greves e das mobilizações populares. A militarização da vida social e o uso da força contra o povo são instrumentos históricos de controle das classes dominantes contra aqueles que lutam por direitos e melhores condições de vida.

Reafirmamos ainda o internacionalismo e a solidariedade ativa entre os povos como princípios fundamentais da tradição socialista libertária. As guerras que se multiplicam em diversas regiões do mundo expressam os interesses das classes dominantes e das potências imperialistas, que transformam territórios e populações em campos de disputa econômica e geopolítica. Diante disso, defendemos a autodeterminação dos povos, o fortalecimento das redes de solidariedade entre trabalhadores de diferentes países e a construção de alternativas baseadas na cooperação direta, no apoio mútuo e na organização popular. A paz que defendemos não é a paz imposta pelas armas, mas a paz construída pela luta coletiva, pelo internacionalismo e pela superação das estruturas de dominação que sustentam a guerra e a exploração em escala global.

5) Pela autonomia das lutas — contra a instrumentalização eleitoral do 1º de Maio

O Primeiro de Maio possui um significado histórico profundamente vinculado à organização independente dos trabalhadores e trabalhadoras. Sua trajetória demonstra que direitos sociais foram conquistados por meio da mobilização coletiva e da ação direta das bases sociais.

Por isso, defendemos que a data seja preservada como espaço de organização e expressão das pautas populares, sem que seja reduzida a agendas institucionais ou eleitorais. A autonomia das organizações da classe trabalhadora é condição essencial para a construção de alternativas sociais que expressem os interesses reais da maioria da população.

Às ruas no 1º de Maio!

Preservar a memória dos Mártires de Chicago significa reconhecer que os desafios atuais não são fenômenos isolados, mas resultado de escolhas políticas e sociais de poucos, que podem e devem ser transformadas pela ação direta.

O Primeiro de Maio permanece como um dia de mobilização, memória e construção. Um dia para fortalecer a organização desde a base, ampliar a solidariedade entre trabalhadores e reafirmar a necessidade de transformações sociais profundas que garantam dignidade, direitos e justiça social.

1º de Maio — dia de luta, memória e organização coletiva da classe trabalhadora!

Organização Socialista Libertária
Maio de 2026