“A Plataforma aos 100 anos”: OSL entrevistada pela BRRN

“A Plataforma aos 100 anos”: OSL entrevistada pela Black Rose / Rosa Negra Anarchist Federation

Introdução

A Plataforma aos 100 anos: Vozes de Anarquistas Organizados pelo Mundo (Vol. 1)

Para marcar o aniversário de 100 anos da publicação da Plataforma Organizacional dos Comunistas Libertários (Esboço), temos o prazer de apresentar o primeiro de uma série de dois volumes de entrevistas que discutem o legado duradouro do documento com organizações anarquistas de todo o mundo.

A Plataforma, como é frequentemente chamada de forma abreviada, foi escrita por um grupo de anarquistas russos e ucranianos exilados logo após a tomada do poder estatal pelos bolcheviques durante a Revolução de Outubro de 1917. O documento pretendia ser uma correção à ortodoxia anarquista predominante na época, a qual seus autores — incluindo Nestor Makhno e outros participantes ativos na revolução — acreditavam ter sido a causa de sua derrota.

Este primeiro volume de entrevistas abrange organizações anarquistas nas Américas. Este projeto é uma colaboração entre os Comitês de Formação Externa e de Relações Internacionais da Black Rose / Rosa Negra (BRRN).

Link para o volume 1 completo: https://www.blackrosefed.org/platform-100-interviews-vol-1/

Entrevista com a OSL

1. A OSL é uma organização nova, mas é composta por militantes experientes da FARJ, OASL, RL e COMPA. Dentro da OSL, esses grupos mantêm suas identidades distintas ou se fundiram oficialmente para se tornarem núcleos da OSL? Se sim, o que esse processo de fusão envolveu?

OSL: A OSL foi formada justamente por meio de um processo de fusão organizacional entre essas organizações e coletivos. Nosso entendimento era de que, para avançar na construção de uma organização política anarquista nacional, não bastava manter apenas uma relação de coordenação entre organizações e grupos autônomos; era necessário construir uma estrutura organizacional comum, com uma unidade ideológica, teórica, estratégica e tática mais profunda. Em nossa visão, essa coordenação de organizações/grupos autônomos ou relativamente autônomos, que era o que existia no âmbito da CAB (Coordenação Anarquista Brasileira), era um fator que dificultava a construção efetiva de uma organização anarquista nacional.

Por essa razão, a FARJ, a OASL, a RL, o COMPA e outros militantes individuais decidiram deixar de existir como organizações políticas separadas para formar uma única organização nacional: a OSL. Naturalmente, continuamos a reconhecer os diferentes legados históricos, experiências regionais e trajetórias políticas que cada uma dessas organizações/grupos construiu ao longo dos anos. Esses legados continuam sendo fundamentais para a construção coletiva da OSL.

Contudo, organizacionalmente, não operamos mais como uma federação de grupos autônomos, onde cada um preserva suas próprias linhas. Nossos núcleos locais e regionais passaram a fazer parte de uma única estrutura nacional, funcionando sob um arcabouço organizacional comum, com instâncias unificadas, linhas políticas compartilhadas e mecanismos coletivos de tomada de decisão e prestação de contas.

Esse processo de fusão envolveu vários anos de convergência política e organizacional. Desde pelo menos 2021, nossa regional da então CAB (Sudeste / Centro-Oeste) já vinha funcionando, na prática, de maneira altamente integrada, unificando processos internos, coordenação política, formulações e frentes de trabalho. Essa experiência demonstrou concretamente as vantagens de passar da coordenação para uma organização política unificada.

As diretrizes gerais da OSL foram desenvolvidas durante as diferentes etapas do nosso primeiro congresso (I ConOSL), onde debatemos e decidimos sobre questões relacionadas à estrutura organizacional, estratégia, teoria, programa e expansão nacional. Entendemos esse processo como parte de um esforço de amadurecimento do anarquismo brasileiro e de construção de uma ferramenta política mais homogênea, coerente e capaz de intervir de forma consistente na luta de classes brasileira.

2. Vamos discutir o dualismo organizacional. Os grupos que se uniram para formar a OSL são bem conhecidos por seu trabalho em receber, articular e transmitir o conceito político-estratégico do especifismo — sendo o exemplo mais conhecido o documento Anarquismo Social e Organização da FARJ. Estamos realizando esta entrevista no centenário da publicação da Plataforma pelo Grupo Dielo Truda. Embora tanto o especifismo quanto o “plataformismo” sejam expressões do dualismo organizacional, frequentemente surgem dúvidas sobre as semelhanças ou diferenças enfatizadas em cada abordagem. A OSL vê essas diferenças como puramente artificiais e estéticas, ou existe uma divergência substantiva entre elas?

OSL: Entendemos que o especifismo e o plataformismo são expressões históricas distintas de uma mesma tradição anarquista: o dualismo organizacional, cujas origens remontam a Bakunin e à experiência da Aliança. Ambos defendem a necessidade de uma organização anarquista específica com unidade teórica, ideológica, estratégica e tática, atuando de maneira complementar com os movimentos populares e de massas.

Para nós, as diferenças entre o especifismo e o plataformismo não são meramente artificiais, nem constituem divergências inconciliáveis. Elas dizem respeito, sobretudo, às condições históricas e regionais em que essas experiências se desenvolveram. O plataformismo emergiu no contexto europeu após a Revolução Russa, particularmente a partir da experiência do Grupo Dielo Truda e da análise crítica do fracasso anarquista diante do bolchevismo. O especifismo, por outro lado, desenvolveu-se principalmente na América Latina, liderado pela Federação Anarquista Uruguaia (FAU), incorporando reflexões sobre o imperialismo, a dependência e estratégias de inserção social em países periféricos.

A OSL reivindica ambas as tradições como herdeiras legítimas do dualismo organizacional anarquista de origem aliancista. Consideramos que há mais convergências do que divergências entre elas e buscamos justamente sintetizar suas contribuições históricas, organizacionais e estratégicas em uma proposta adequada à realidade brasileira e latino-americana contemporânea.

3. Como a Plataforma informa a teoria, a prática e/ou a estrutura organizacional da OSL?

OSL: A Plataforma do Grupo Dielo Truda possui uma importância histórica fundamental para a nossa corrente, especialmente porque sistematizou claramente princípios organizacionais que já estavam presentes em experiências anteriores do anarquismo revolucionário. Sua defesa da unidade teórica, tática e estratégica, da responsabilidade coletiva e do federalismo contribui diretamente para a nossa concepção organizacional.

A OSL entende a organização anarquista como uma organização política homogênea e programática. Compreendemos que, sem unidade e coerência orgânica, os anarquistas tendem à dispersão e à incapacidade de influenciar os processos reais da luta de classes.

Buscamos articular a Plataforma com as contribuições do especifismo latino-americano, especialmente os da FAU, que se aprofundou em questões relacionadas à inserção social, ao trabalho de massas e à necessidade de construção sustentada do poder popular em contextos periféricos e dependentes.

Assim, a Plataforma influencia nossa estrutura organizacional nacional, nosso entendimento sobre o papel da organização anarquista específica e nossa defesa de um projeto revolucionário baseado na autogestão, no federalismo e na luta de classes.

4. A OSL propõe o conceito de Materialismo Libertário como uma alternativa tanto ao idealismo/pós-modernismo quanto à concepção clássica do Materialismo Dialético. Vocês poderiam articular brevemente as bases dessa análise?

OSL: Nossa concepção de materialismo — ou realismo libertário — busca construir uma teoria social libertária capaz de interpretar a realidade contemporânea sem cair nas limitações do marxismo clássico nem nos problemas do pós-modernismo e do pós-estruturalismo.

Por um lado, consideramos necessário superar aspectos problemáticos do marxismo, especialmente suas tendências economicistas, deterministas e estatistas, bem como a identificação histórica entre socialização e estatização (sociedade e Estado) que caracterizou grande parte da experiência do chamado “socialismo real”. Também entendemos que certas formulações do “materialismo histórico” ou do “materialismo dialético” acabaram por cristalizar interpretações excessivamente rígidas da realidade social.

Por outro lado, rejeitamos o avanço contemporâneo do pós-modernismo e do liberalismo progressista em amplos setores da esquerda. Consideramos problemática a fragmentação das análises sociais, a negação da centralidade da luta de classes, o relativismo epistemológico e a substituição de perspectivas estruturais por abordagens exclusivamente discursivas ou identitárias.

Nosso materialismo libertário busca afirmar uma ciência e uma razão críticas, articulando classe, raça/etnia, gênero/sexualidade e nacionalidade dentro de uma perspectiva estrutural e classista. Buscamos construir nossa própria teoria social libertária, fundamentada em autores anarquistas clássicos e contemporâneos, capaz de orientar estrategicamente nossa prática política e nosso projeto revolucionário.

5. Quais áreas de organização de massa ou de base a OSL prioriza ou está envolvida atualmente?

OSL: A OSL atua em várias frentes de organização de base e trabalho social, buscando fortalecer a auto-organização das classes oprimidas e construir um projeto de poder popular de caráter socialista e libertário.

Estamos inseridos nos movimentos sindical, comunitário, estudantil, agrário e territorial, bem como em iniciativas relacionadas à luta por moradia, organização nas periferias e variadas formas de mobilização popular. Entendemos que os movimentos populares constituem o terreno fundamental da luta de classes e que é a partir deles que podem emergir processos reais de transformação social.

Nosso trabalho busca fortalecer as práticas de democracia de base, ação direta, independência de classe, combatividade e autogestão. Defendemos também a necessidade de um acúmulo político e organizacional de longo prazo, compreendendo que a transformação revolucionária exige um processo prolongado de construção de poder social.

Além disso, avançamos na expansão do alcance organizacional da OSL para diferentes regiões do Brasil, buscando construir uma organização nacional efetivamente enraizada nas lutas concretas das classes oprimidas.

6. A corrente do “anarquismo organizado” parece estar crescendo em todo o mundo, inclusive na América do Sul. A que vocês atribuem isso?

OSL: Antes de tudo, é importante notar que o termo “anarquismo organizado” pode gerar mal-entendidos. Isso ocorre porque ele possui pelo menos dois significados. Por um lado, pode se referir apenas à ala organizacionista do anarquismo (que se opõe aos antiorganizacionistas) e, nesse sentido, os anarcossindicalistas, sintetistas e outras correntes também estariam incluídos, já que eles também defendem a organização (embora em formatos diferentes do nosso). Por outro lado, várias organizações que bebem da nossa tradição (aliancista, plataformista e especifista) utilizam o termo “anarquismo organizado” para se referir à nossa corrente. Nesse caso, anarquismo organizado e a nossa corrente seriam sinônimos. É sempre bom fazer essa distinção, pois não defendemos a “organização” em abstrato; defendemos uma forma específica de organização, que difere de outras, como o anarcossindicalismo e o sintetismo, por exemplo.

De todo modo, acreditamos que esse crescimento organizacional do anarquismo está relacionado a vários fatores históricos e políticos. Primeiro, há uma crise prolongada das formas tradicionais da esquerda, especialmente das experiências socialdemocratas e marxistas-leninistas, que em muitos casos demonstraram profundas limitações, tanto estratégica quanto organizacionalmente.

Ao mesmo tempo, os efeitos dos problemas do capitalismo de Estado — o aprofundamento das desigualdades, a precarização do trabalho, a ascensão do autoritarismo, as guerras, a destruição ambiental e a intensificação das formas de dominação — trouxeram a necessidade de alternativas revolucionárias de volta ao primeiro plano.

Entendemos que esse ainda é um processo modesto, diante da magnitude dos desafios postos. No entanto, acreditamos que esse fortalecimento internacional do “anarquismo organizado” expressa uma tentativa de reconstruir uma alternativa socialista, revolucionária e libertária enraizada nas lutas concretas das classes oprimidas. Em comparação com outras correntes do socialismo, nosso entendimento é que há um recuo do anarquismo e de todas as expressões revolucionárias socialistas. Internacionalmente, ao lado da ascensão da extrema-direita, há também uma ascensão de expressões do socialismo altamente centralizadas e autoritárias. No Brasil isso é visível, e ainda não temos uma análise aprofundada que explique esse fenômeno. Contudo, no que tange ao anarquismo e ao movimento revolucionário, acreditamos que o anarquismo organizado tem crescido e se posicionado como uma abordagem alternativa socialista libertária diante dos desafios da luta de classes. ■