Queimadas, poluição e o ano mais quente da História: parar a exploração da Natureza é urgente para manter a vida no planeta
O território brasileiro vivenciou em 2024 um ano de recordes de desmatamento por queimadas. Com ondas de calor e uma seca prolongada em grande parte do país, o fogo ganhou terreno e destruiu como nunca. A mudança do clima, o modelo agroexportador brasileiro e a farsa do “capitalismo verde” defendido pelo governo e um setor do agro comprovaram que, a depender dos de cima, as condições de vida na Terra podem ficar insustentáveis enquanto eles lucram.
Nos primeiros nove meses do ano, foram queimados 22,4 milhões de hectares, uma área comparável ao tamanho do estado de Roraima. Um aumento de 150% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo o Monitor do Fogo, do MapBiomas.
Todo esse fogo e o tempo seco afetaram o clima em grande parte do país, principalmente entre os meses de agosto e setembro. Estados como Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná tiveram recordes de temperatura para setembro, em algumas regiões ultrapassando os 40 graus. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia, foi o setembro mais quente do país desde o começo das medições, há 63 anos. A falta de chuva e os incêndios também afetaram a qualidade do ar em parte da Região Norte e no Centro-Sul do país. O Distrito Federal ficou mais de 150 dias sem chuva.
Queimadas na Amazônia, no Cerrado e Pantanal
Cerca de 50% de toda a área queimada no país fica na Amazônia, o bioma mais afetado pelo fogo. Metade eram florestas, e outros 33% eram pastagens. A Região Norte vem passando por secas extremas nos últimos anos, o que agrava a situação do bioma.
No Cerrado, 80% das queimadas foram em imóveis privados e territórios indígenas, segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia. Os municípios com os maiores incêndios estão nas regiões de fronteira com a Amazônia e no “Matopiba”, e ambientalistas chamam atenção para o problema da expansão das fronteiras agrícolas, com o avanço do agronegócio. O garimpo ilegal é outra ameaça, destruindo a vegetação nativa e provocando fortes impactos sobre a região.
O Pantanal foi mais fortemente afetado: entre janeiro e setembro, a área queimada foi 2.306% maior do que a média dos cinco anos anteriores – recorde de 1,5 milhão de hectares consumidos pelo fogo. Pesquisadores apontam que o bioma pode deixar de existir na metade do século. O Pantanal é ameaçado pela própria degradação da Amazônia, na medida em que ele é irrigado pelos chamados “rios voadores”, fenômeno decorrente da umidade da floresta, que ajuda a equilibrar o clima no Centro-Sul do país.
As queimadas e o agronegócio
É impossível separar os incêndios nos biomas, as secas extremas, as ondas de calor, as fortes tempestades em diferentes regiões (e outras consequências climáticas) do modelo econômico brasileiro. O agronegócio, que concentra terras na mão de poucos, produz commodities para vender ao exterior – a grande parceira é a China, que compra 1/3 dos produtos exportados pelo setor.
O sucesso econômico desse modelo estimula o avanço da fronteira agrícola para o Norte e Nordeste, e o desmatamento com fogo é o primeiro processo de preparo da terra para a superexploração. Fortalece um sistema político-partidário cada vez mais reacionário, que avança sobre os direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais, além de destruir a própria Natureza.
No Centro-Oeste, cabe destacar o Mato Grosso, o principal estado do agronegócio, e também onde houve o maior desmatamento: 25% da área queimada no país, de acordo com o MapBiomas. Principal produtor de soja e milho, destrói Cerrado e Pantanal e persegue movimentos indígenas e camponeses que fazem um uso mais ecológico da terra. A capital Cuiabá registra recordes históricos de temperatura no Brasil.
No estado de São Paulo, grande parte dos incêndios deste ano foram em áreas agrícolas, segundo o MapBiomas. Os casos foram registrados especialmente em plantações de cana-de-açúcar, que é o principal produto exportado pelo estado. O fogo se espalhou por várias regiões e se aproximou de áreas de conservação na Grande São Paulo. Depois de semanas de seca, a população ainda experimentou a chamada “chuva preta”, quando a água se juntou à poluição que pairava no ar por vários dias.
Muito discurso e pouca ação
Os discursos do governo Lula-Alckmin de defesa do meio ambiente e combate às queimadas parecem frágeis quando nos deparamos com a realidade do fogo. Os incêndios vinham batendo recorde no país desde o começo do ano, e já se esperava que a situação fosse agravada no período mais seco. O próprio governo federal assumiu que os esforços foram insuficientes para fazer frente ao problema.
No momento em que as preocupações climáticas ganham nova urgência, com catástrofes em várias regiões do mundo, o Brasil vai receber, no próximo ano, a 30ª Conferência do Clima da ONU. Mas o governo segue com a política de estímulo aos combustíveis fósseis, o que deve aumentar as emissões de carbono em mais de 20% até 2050, segundo o Observatório do Clima.
A verdade é que o sistema capitalista-estatista é a grande máquina que se expande sobre a destruição da Natureza, e assim vai tornando insustentáveis as diversas formas de vida. E o papel do Brasil no cenário internacional ajuda a estruturar as classes dominantes em torno do agronegócio e da mineração, arrasando o meio ambiente e atacando direitos de indígenas, camponeses e populações tradicionais.
Estado e capitalismo são sócios na destruição da vida, portanto, para salvar a vida é preciso que ambos sejam destruídos, avançando num projeto de poder popular autogestionário que destrua a dominação e a exploração, e tenha como prioridade a defesa de todas as formas de vida, e não o lucro de poucos.
Texto originalmente publicado no Libera 181 (set-dez de 2024).