A resistência palestina e o conflito regional anti-imperialista
Em 7 de outubro de 2023, uma operação militar liderada pelo Hamas, mas que contou também com outras forças armadas, como a FDLP [1], organização de orientação marxista-leninista, rompeu o cerco de 17 anos do Estado Colonial do Apartheid Sionista na Palestina Ocupada. A operação causou grande surpresa aos EUA e seus aliados, tendo em vista que o mito do “imbatível” Estado de Israel caiu por terra e a negligência ou fraqueza da inteligência militar sionista também foi exposta.
Desde então, uma chuva de informações fragmentadas, desencontradas ou simplesmente falsas tomou conta do debate público, como a informação da decapitação em massa de bebês israelenses e acusações de estupros em massa [2]. Até mesmo o número de mortes sofreu alterações, dando conta de 1.200 israelenses mortos, muitos deles militares. Informações que preparavam a justificativa das atrocidades que Israel cometeria contra os palestinos.
Seríamos ingênuos ao afirmar que ações reprováveis (e que estão fora de nossa perspectiva política e princípios éticos libertários) não possam ter sido cometidas por combatentes palestinos nessa ofensiva — e não as apoiamos. Mas usá-las como justificativa para as atrocidades cometidas pelo Estado sionista é uma forma de tentar equilibrar uma relação de dominação, na qual é o Estado de Israel que oprime, massacra e domina os palestinos há décadas, e não o inverso. O que se seguiu foi um verdadeiro banho de sangue perpetrado por Israel e seus cúmplices. Já são cerca de 35 mil palestinos assassinados pelas forças israelenses, dentre os quais mais de 15 mil crianças. Para se ter ideia, 75% dos jornalistas assassinados no mundo em 2023 foram mortos pelas forças armadas israelenses.
Toda a ação militar de Israel demonstra, sem nenhuma dúvida, que as forças israelenses cometem genocídio contra o povo palestino, impedindo a ajuda humanitária, assassinando crianças de maneira deliberada, fuzilando civis a sangue frio e realizando limpeza étnica em seus territórios.
Em 1º de abril de 2024, tivemos uma nova escalada da ação sionista, quando o Estado israelense bombardeou a embaixada do Irã na Síria, matando três comandantes da Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC), incluindo um comandante sênior. Não foi o primeiro ataque, mas sim algo “habitual”. A entidade sionista bombardeia a Síria semanalmente, ou no máximo a cada 15 dias, há mais de 14 anos. A hipocrisia ocidental é comparável ao orçamento gasto para proteger seu aliado estratégico e cabeça de ponte imperialista na região.
Os Estados Unidos, assim como as marinhas da França e da Grã-Bretanha, se empenharam em deter o ataque aéreo iraniano a partir de drones e mísseis. Em apenas 12 horas, o custo de uma noite para repelir a comedida resposta iraniana foi de mais de US$ 1,3 bilhão. Se levarmos em consideração os mais de US$ 15 bilhões enviados para o Estado Colonial Sionista após 7 de outubro de 2023 e a “ajuda” regular, que varia de US$ 3,8 bilhões a US$ 5 bilhões/ano, teremos um custo aproximado total em seis meses de quase US$ 22 bilhões para proteger os interesses imperialistas na região e manter o regime de apartheid sobre os palestinos.
Se formos realmente projetar o conjunto das operações de apoio do imperialismo aos sionistas, em seis meses este custo passa de US$ 30 bilhões. A verba estimada pelos militares egípcios leais ao general Sissi para construir o maior campo de concentração a céu aberto no mundo no Sinai seria de US$ 50 bilhões (mais o perdão da dívida externa do Egito). Ou seja, se o pogrom, a limpeza étnica anunciada pelos carniceiros de Tel Aviv se suceder, a verba para erguer a prisão de centenas de milhares de palestinos no Sinai já teria sido gasta pela metade. Para reconstruir Gaza em escombros, seriam necessários outros US$ 30 bilhões.
A resposta militar iraniana parece ter sido calculada para ser uma demonstração de força regional e, ao mesmo tempo, agir de maneira limitada de modo a não escalar o conflito. Hoje, a entidade sionista sabe que se não contar com ajuda direta de potências da OTAN, além do já citado financiamento dos Estados Unidos, simplesmente a Palestina, a Galileia, Golã e todo o Bilad al-Sham podem ser libertados. O gabinete de extrema direita de Netanyahu não tem interesse em realizar um acordo pela libertação dos reféns, pois a continuidade do massacre palestino atende aos desejos de limpeza étnica do sionismo mais radical e de sua manutenção no poder. Se a insanidade do Estado sionista, além do oportunismo eleitoral de Netanyahu e sua gangue, levarem a escalar o conflito, teremos uma possibilidade de emergência de uma guerra regional que pode significar o início do fim do apartheid.
Obviamente, nenhuma guerra é desejada por nenhum socialista libertário. Mas fazer política é atuar com as condições concretas colocadas pela realidade. Em caso de uma escalada do conflito, é fundamental que nos coloquemos firmemente favoráveis às ações das classes oprimidas em seu sentido tático (fim do apartheid palestino). A lição da história do anarquismo nesse sentido estratégico é clara: apoiar as guerras anti-imperialistas e ações militares de libertação nacional é um dever político, visando radicalizá-las em movimentos sociais de ruptura com os sistemas de dominação vigentes.
Um exemplo dessas variadas ações táticas anti-imperialistas e anticoloniais foram os acampamentos estudantis nos EUA, em defesa do povo palestino e pelo fim do genocídio. Notícias recentes mostram que já há acampamentos na Espanha e no Brasil, demonstrando que a ação internacionalista e solidária das classes oprimidas pode convergir para a derrota do sionismo e de seu aliado norte-americano na região. O genocídio pode ser parado e o Estado sionista pode ser derrotado pelas ações das classes oprimidas internacionalmente.
Notas:
[1] Frente Democrática pela Libertação da Palestina
[2] Num trabalho de investigação detalhado, a Al-Jazeera descobriu que a história da decapitação em massa foi fabricada por um sionista radical e tal fato nunca existiu. A reportagem investigativa da Al Jazeera encontrou uma única prova de violência sexual. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lwJwlPOHjec&rco=1
Texto originalmente publicado no Libera 180 (jun-ago de 2024).