Lancemo-nos na luta e a vitória será nossa – Maria Antônia Soares
Nascida no estado de São Paulo, em 1898, Maria Antônia Soares fez parte do Centro Feminino Jovens
Idealistas, e atuou em diversas movimentações libertárias no início do século 20, assim como os irmãos,
Primitivo Raimundo Soares e Maria Angelina Soares. O artigo a seguir foi publicado na edição 16 do
jornal A Luta, em 1916, quando Maria Antônia tinha 18 anos de idade. A transcrição é do livro “Unidas
nos lancemos na luta: o legado anarquista de Maria A. Soares”, da Tenda de Livros – pesquisa de Aline
Ludmila, Beatriz Silvério e Samanta Colhado Mendes.
Ainda a mulher…
Esposa e mãe, viu-se obrigada a abandonar o lar e buscar meios de contribuir também para o sustento
da família por ser o ganho do marido demasiado mesquinho. Filha e irmã, viu a necessidade de acorrer
ao sustento dos velhos pais, inutilizados para o trabalho por terem empregado nele mais forças das que
dispunham, e aos seus irmãozinhos, demasiadamente pequenos ainda para se sustentarem a si
próprios.
A necessidade obrigou-a ao excessivo trabalho das fábricas, de todos os lugares, enfim, onde pudesse
ganhar o pão que em casa faltava.
Os capitalistas viram nisso uma excelente forma de aumentar os seus ganhos, e deram-lhe o que ela
pedia; reservando para o homem os trabalhos que requerem uma força superior à que a mulher possui,
e também os lugares onde ela pudesse influir moralmente nos destinos dos povos, alegando que é
incompetente para isso.
Vemos, pois, que hoje a mulher é explorada vergonhosamente, e que o homem se vê obrigado a
trabalhar por um salário mais mesquinho que nunca sob a pena de ficar sem trabalho, o que para ele
significa a mais horrível miséria.
Ao considerar bem sobre a nossa situação, conclui-se que só temos dois caminhos a tomar: deixarmo-
nos ficar inativos e ir rolando fatalmente até chegar ao mais vergonhoso estado baixeza e miséria, ou, sem temer as consequências que podem advir, lançarmo-nos numa luta decidida sem tréguas até
conquistarmos os direitos que nos legou a Natura e que nos foram usurpados por uma classe parasitária
que soube aproveitar-se da nossa fraqueza.
Tenho observado que quando alguém de nós mulheres dá uma opinião, ou presta o seu concurso em
um ato qualquer de propaganda emancipadora, não falta algum imbecil (eu assim considero) que deixe
assomar aos lábios um sorriso zombador, e chegam mesmo algumas vezes a patentear verbalmente,
por meio de sandices, o desprezo que lhe inspira a ação daquela mulher.
Eu reconheço que os que isto fazem, ou são demasiado ignorantes ou hipócritas, e em qualquer dos
dois casos só podem merecer a nossa compaixão.
Impõe-se, para remediar o mal estar, que todos os homens e mulheres, sentimos uma enérgica ação de
nossa parte, que venha trazer, como consequência imediata, melhorias na nossa condição econômica.
O homem e a mulher sofrem as mesmas necessidades, ambos são explorados pela mesma classe, a
capitalista, e posto que juntos sofrem o mesmo jugo; justo é que também juntos procurem destruí-lo.
Sente-se palpavelmente a necessidade de uma forte união entre os famintos de ambos os sexos, uma
união total de forças e de sentimentos, que faça dos miseráveis escravos indefesos uma falange de
valentes, disposta a lutar e vencer.
Somente a união e a instrução poderão elevar-nos moralmente ao nível de seres racionais.
Já é tempo que o homem e a mulher deixem de viver separados por um dique de prejuízos e egoísticos
conceitos, com os quais não se consegue outra coisa senão fazer infeliz a humanidade.
A ação do operariado unido, livre de preconceitos de raça, de nacionalidade ou sexo, nos fará esquecer
a vida de escravos que vivemos até hoje; da qual nos lembraremos somente para amaldiçoá-la.
A nós, mulheres, é a quem compete iniciar a campanha libertadora, porque, a nossa alma de mártires
que desde os primeiros tempos sofre os aviltantes ultrajes da mais infame organização social; a nossa alma é a mais vivamente ferida, e que, mais sedenta de amor e de justiça, mais disposta deve estar a
alcançar essas suas fontes sublimes das quais emana a verdadeira dita.
Nós alentaremos os nossos irmãos e estes por sua vez nos darão o valioso concurso das energias nas
quais reside a força suprema.
Lancemo-nos, pois, na luta com o nosso coração cheio de fé e esperança; e a vitória será nossa.
Texto originalmente publicado no Libera 182 (jan-jul de 2024).