Poder, tecnologia e Elon Musk
Satélites da Starlink fornecem internet para 90% das cidades da Amazônia
Infraestrutura tecnológica deve ser levada em conta em um projeto de ruptura
Uma polêmica recente trouxe à tona uma situação curiosa e didática: as Forças Armadas do Brasil dependem de uma empresa estrangeira para suas comunicações. A Starlink, do bilionário Elon Musk, fornece internet via satélite para as operações do Exército e da Marinha em áreas remotas, como a Amazônia. Parece contraditório, mas o país precisa dessa tecnologia para defender sua soberania, enquanto, na prática, acaba ficando à mercê de uma empresa estrangeira, comandada por um bilionário e hoje chefe de um departamento do governo Trump, nos EUA.
A questão se torna ainda mais complexa quando se considera que a Starlink é ligada ao X, antiga plataforma Twitter, também controlada por Musk. Com o controle de uma empresa de telecomunicações essencial e de uma das maiores redes sociais do mundo, Musk acumula um poder considerável. Ele pode, ao mesmo tempo, influenciar a opinião pública e fornecer (ou retirar) serviços críticos de internet. Essa situação deixa clara a contradição: o Brasil precisa de uma empresa estrangeira para garantir sua soberania, mesmo que isso também coloque em risco essa mesma soberania.
O problema não é exclusivo do Brasil. Na era da globalização e da tecnologia avançada, os estados nacionais têm cada vez menos controle sobre o que acontece dentro de suas fronteiras, e as classes dominantes cada vez mais exercem seu poder de dominação. Empresas gigantescas, como a Starlink e outras, operam em uma escala global que os governos muitas vezes não conseguem acompanhar. Para se ter uma ideia, a Starlink tem uma constelação com mais de 6 mil satélites em órbita, fornecendo internet para regiões onde outras tecnologias não chegam. No Brasil, suas antenas estão instaladas em 90% dos municípios da Amazônia. Ou seja, em muitas regiões isoladas do país, a Starlink é a única opção disponível.
A União Europeia, diante de um cenário semelhante, decidiu agir. Em 2022, lançou o IRIS, um sistema próprio de comunicação via satélite para os países do bloco. A ideia é reduzir a dependência de empresas estrangeiras, oferecendo uma alternativa controlada pelos governos europeus. O sistema deve estar plenamente operacional em 2027, mostrando que há uma preocupação crescente com essa questão.
Além disso, a ligação entre a Starlink e o X aumenta o poder de influência de Musk. Com o controle da plataforma, ele pode moldar debates e influenciar a opinião pública, algo que pode impactar diretamente nas políticas de vários países, inclusive no Brasil.
Diante de tudo isso, a soberania nacional precisa ser repensada, no sentido de entendermos que antes das relações entre nações, existe a luta de classes, que corta todos os países. As classes dominantes não controlam apenas as fronteiras físicas; elas controlam as infraestruturas tecnológicas e informacionais. Enquanto não existir uma infraestrutura própria e segura, estaremos sempre sujeitos aos interesses de grandes corporações globais. E essa é uma realidade que vai muito além do Brasil, afetando as classes oprimidas do mundo todo.
Em resumo, o caso da Starlink mostra como a dependência tecnológica pode fragilizar qualquer projeto de poder popular autogestionário, e qualquer ruptura mais profunda do sistema de dominação precisa ter em mente hoje as infraestruturas de tecnologia e comunicação.
Texto originalmente publicado no Libera 182 (jan-jul de 2025).