‘Fora Paz’: a rebelião boliviana e os limites da institucionalidade burguesa

A Bolívia vive um dos momentos mais explosivos de sua história recente. Há mais de duas semanas, mineiros, professores, camponeses, povos indígenas e moradores das cidades protagonizam uma poderosa mobilização nacional exigindo a renúncia imediata do presidente Rodrigo Paz. Convocadas pela Central Operária Boliviana (COB), pela Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), pelos Ponchos Vermelhos, organizações indígenas e sindicatos de diversos setores, as manifestações já bloquearam dezenas de estradas e cercaram o governo.

Mais de setenta bloqueios foram erguidos nas vias de acesso ao Departamento de La Paz. O auge das mobilizações ocorreu quando dezenas de milhares de manifestantes desceram de El Alto até a capital do país. A resposta do governo foi a repressão. Pelo menos quatro manifestantes foram assassinados, dezenas ficaram feridos e mais de cinquenta pessoas foram presas. O que se vê hoje na Bolívia não é um episódio isolado, mas a expressão de uma crise profunda que atravessa o país e revela os limites das soluções institucionais oferecidas pelas classes dominantes.

A atual rebelião inscreve-se na tradição das grandes insurreições populares bolivianas e latino-americanas. Das jornadas revolucionárias de 1952 à Guerra da Água e à Guerra do Gás, passando pelas diversas “puebladas” que derrubaram governos neoliberais no continente, a história demonstra que as transformações mais profundas surgiram da ação direta das classes exploradas e dos povos oprimidos, e não das instituições construídas para administrar a dominação.

O fracasso do “capitalismo para todos”

Rodrigo Paz chegou ao governo prometendo um suposto “capitalismo para todos”. Em poucos meses, porém, tornou evidente o verdadeiro conteúdo de seu projeto: austeridade para os trabalhadores, privilégios para os grandes proprietários e submissão aos interesses do capital financeiro internacional.

Seu governo promoveu aumentos brutais nos preços dos combustíveis, tentou avançar na privatização e entrega dos recursos naturais e abriu caminho para a transformação de pequenas propriedades camponesas em propriedades sujeitas à lógica do crédito, do endividamento e da execução hipotecária, favorecendo diretamente o agronegócio. Ao mesmo tempo, eliminou impostos sobre grandes fortunas e lucros extraordinários, transferindo ainda mais riqueza para os setores privilegiados da sociedade.

Trata-se de um programa alinhado aos interesses do Fundo Monetário Internacional, das transnacionais e das elites agrárias bolivianas. Não por acaso, a explosão social surgiu justamente da deterioração das condições de vida das maiorias populares.

A trajetória familiar de Rodrigo Paz ajuda a compreender o significado político de seu governo. Filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora e neto de Víctor Paz Estenssoro, ele representa uma continuidade histórica das elites que conduziram a Bolívia ao neoliberalismo. Estenssoro, embora tenha chegado ao poder impulsionado pela Revolução de 1952, acabou limitando suas potencialidades transformadoras aos marcos do nacionalismo burguês. Décadas depois, retornou ao governo para implementar um dos programas neoliberais mais agressivos da América Latina. Rodrigo Paz retoma hoje essa mesma tradição.

A crise do modelo extrativista e os limites do progressismo

Entretanto, a atual crise boliviana não pode ser explicada apenas pelas políticas de Rodrigo Paz. Ela também expressa os limites históricos do ciclo progressista representado pelo Movimento ao Socialismo (MAS), parte da chamada “Onda Rosa” da América latina.

É preciso reconhecer que os governos de Evo Morales e Luis Arce representaram alguns avanços importantes: ampliaram direitos sociais, fortaleceram a soberania em setores estratégicos e reconheceram formalmente a diversidade nacional através do Estado Plurinacional, criado pela Constituição de 2009. Contudo, não romperam com as estruturas fundamentais do capitalismo boliviano.

A economia continuou baseada na exportação de matérias-primas e recursos naturais. A dependência dos mercados internacionais permaneceu intacta. Os grandes grupos econômicos mantiveram seu poder estrutural. O chamado Socialismo do Século 21 apostou na conciliação entre capital e trabalho, imaginando ser possível obrigar a burguesia a cumprir uma suposta função social através da regulação estatal.

A realidade, mais uma vez, demonstrou os limites dessa estratégia. Enquanto os preços internacionais das commodities permaneceram elevados, foi possível combinar crescimento econômico e distribuição parcial de renda. Quando esse ciclo se esgotou, reapareceram todas as contradições estruturais da economia boliviana.

Além disso, os governos progressistas acabaram fortalecendo mecanismos de centralização política e institucionalização dos movimentos sociais. Muitas organizações populares passaram a depender do Estado, perdendo parte de sua autonomia e capacidade de mobilização. Quando a ofensiva neoliberal retornou, encontrou um movimento popular menos preparado organizativamente para enfrentá-la.

Por isso, embora Evo Morales apareça novamente como referência para amplos setores da população, seu retorno não representa uma solução para os problemas estruturais que hoje explodem nas ruas. A substituição de um governo por outro, sem transformação das relações de propriedade e das formas de poder existentes, tende a reproduzir os mesmos impasses, por exemplo, que ocorrem no Brasil com um governo de frente ampla que chancela as políticas neoliberais em troca de oferecer uma sensação de pacificação social.

Imperialismo, extrema-direita e a disputa pela Bolívia

A conjuntura boliviana também está inserida numa disputa geopolítica mais ampla.

Os Estados Unidos acompanham de perto a situação e já buscam caracterizar as mobilizações como uma tentativa de golpe ou como ações financiadas pelo crime organizado. Trata-se de uma estratégia recorrente para deslegitimar processos de luta popular na América Latina.

As denúncias feitas por Evo Morales sobre a atuação de organismos ligados ao governo norte-americano, assim como a expulsão da embaixadora colombiana após declarações do presidente Gustavo Petro classificando os acontecimentos como uma insurreição popular, evidenciam o nível da tensão política existente.

Ao mesmo tempo, a extrema-direita boliviana busca se apresentar como alternativa diante da crise. Caso o movimento popular não aprofunde a construção de uma saída própria e independente, que não deposite o avanço de suas urgências a um salvador eleito ao parlamento, é possível que o desgaste do governo Paz seja capitalizado por setores ainda mais reacionários.

Também merece destaque o silêncio cúmplice de governos da região diante da repressão em curso. A denúncia do envio de equipamentos repressivos, produzidos no Brasil, para as forças de segurança bolivianas revela que a solidariedade entre governos não se confunde com a solidariedade entre os povos. Quando trabalhadores e setores populares entram em confronto com o Estado, mesmo governos que se apresentam como progressistas frequentemente optam pela defesa da estabilidade institucional e dos interesses econômicos das classes dominantes.

A força da ação direta e a necessidade de uma alternativa popular

O elemento mais importante da atual rebelião boliviana é justamente sua origem nas organizações de base.

São os sindicatos, as organizações camponesas, os povos indígenas e os movimentos populares que impulsionam os bloqueios, as marchas e as mobilizações. Não se trata de uma disputa restrita aos corredores do parlamento ou às negociações eleitorais. Trata-se da intervenção direta das classes oprimidas na cena política nacional.

As organizações em luta retomam uma tradição histórica profundamente enraizada na sociedade boliviana: a compreensão de que direitos e conquistas são arrancados através da mobilização coletiva.

Mas a derrubada de Rodrigo Paz, embora necessária, não resolverá por si só os problemas estruturais do país. A história boliviana demonstra que revoltas populares podem ser desviadas, institucionalizadas ou derrotadas quando não conseguem construir formas próprias de poder popular.

O desafio colocado hoje é transformar a força extraordinária das ruas em um projeto político independente dos interesses das elites econômicas, das burocracias estatais e dos mecanismos tradicionais da democracia burguesa. Isso significa fortalecer a auto-organização dos trabalhadores, dos camponeses e dos povos indígenas, ampliar os espaços de decisão coletiva e construir alternativas capazes de enfrentar tanto o neoliberalismo quanto as limitações das experiências reformistas.

Toda solidariedade à rebelião boliviana

Os mortos, os feridos, os presos políticos e os perseguidos pela repressão exigem solidariedade internacional imediata. É necessário exigir o fim da violência estatal, a libertação dos detidos e o respeito ao direito de organização e manifestação do povo boliviano.

Mas a tarefa estratégica vai além da resistência imediata. A atual rebelião recoloca no centro do debate a necessidade de construir uma alternativa política autogestionária baseada na organização independente da classe trabalhadora, dos povos indígenas e dos setores populares. Uma alternativa capaz de enfrentar o poder das transnacionais, das oligarquias locais e do imperialismo, sem reproduzir as limitações dos projetos de conciliação de classes que marcaram diferentes momentos da história latino-americana.

A rebelião boliviana demonstra, mais uma vez, que os povos continuam sendo os verdadeiros protagonistas da história. Seu futuro dependerá da capacidade de transformar a revolta legítima contra o governo Paz em um processo mais profundo de organização popular, independência de classes e transformação social.

Organização Socialista Libertária

Junho de 2026