O Vale do Silício é o nome dado a uma região localizada na Califórnia, Estados Unidos, onde estão as sedes das maiores e mais poderosas empresas de alta tecnologia, como a Meta e a Amazon. Nas últimas décadas, as chamadas Big Techs se tornaram uma das maiores forças da burguesia global, dominantes em campos como comunicação, entretenimento, imóveis, transporte, desenvolvimento militar, finanças e comércio. Na lista das dez pessoas mais ricas do mundo, elaborada pela Forbes em 2024, sete são do ramo tecnológico, sendo que quatro lideram a lista: Elon Musk (Tesla, SpaceX, X) – que pode se tornar em breve o primeiro trilionário do mundo –, Larry Elisson (Oracle), Jeff Bezos (Amazon) e Mark Zuckerberg (Meta). Em sétimo e oitavo estão Larry Page e Sergey Brin (Alphabet Inc., dona do Google) e, por fim, em décimo lugar, está Steve Ballmer (Microsoft).
As gigantes empresas de tecnologia dominam o fluxo global de informações e interações e consolidam um poder sem precedentes sobre as estruturas política, econômica e intelectual-moral na sociedade, contribuindo assim para manter a dominação do sistema capitalista-estatista. Esse controle tecnológico é fundamental para o avanço do neoliberalismo mundo afora, servindo para desmantelar regulações estatais, enfraquecer direitos sociais, ampliar o alcance da ideologia de extrema-direita (xenofobia, misoginia, LGBTfobia, racismo etc.), além de aprofundar a fragmentação social, enfraquecendo a luta de classes.
As Big Techs e o imperialismo
Os maiores conglomerados econômicos no campo da tecnologia são, em sua grande maioria, concentrados nos Estados Unidos. Entre nomes de peso podem ser citados Apple, Amazon, Microsoft, Netflix, Airbnb, Uber e OpenAI.
Um dos mais poderosos certamente é o Alphabet, da qual fazem parte marcas como Google, com serviço de e-mails (Gmail), de mapas (Google Maps, Google Earth, Waze), de arquivos em nuvem (Cloud, Drive), de navegadores (Chrome), de exibição de vídeos (YouTube), de sistemas operacionais (Android) e muito mais. Outras empresas controladas pela Alphabet incluem a Chita e a Verily, dos ramos de biotecnologia e saúde, e a CapitalG e a GV, na área de investimento de risco. O poder da Alphabet é tão abrangente que ela foi alvo de uma ação contra monopólio movida pelo Departamento de Estado dos EUA, com a possibilidade de ter que se desmembrar e vender algumas de suas marcas.
Outra gigante de destaque do Vale do Silício é a Meta, que se tornou uma referência no campo das redes sociais, sendo a proprietária do Facebook (3 bilhões de usuários no mundo), do Instagram (2 bilhões), do WhatsApp (2 bilhões) e do Threads (300 milhões). Em 2020, ela foi a Big Tech que mais investiu em lobby para influenciar o Congresso dos EUA, gastando cerca de US$ 19,7 milhões.
Em 2013, vieram a público as revelações de Edward Snowden sobre o PRISM, uma operação da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA iniciada em 2007, na sequência da aprovação do Protect America Act sob o governo Bush, que deu início a um esquema de vigilância em massa da população mundial através de monitoramento de ligações telefônicas, transações com cartão de crédito e movimentação realizada na internet (pesquisas, e-mails etc.), incluindo as redes sociais. Diversos arquivos indicaram colaboração ativa de Microsoft, Apple, Alphabet e Meta com o estado norte-americano. Os documentos também indicaram que a então presidente Dilma Rousseff e a Petrobras estavam sob monitoramento.
Em 2017, os Estados Unidos deram início ao chamado Projeto Maven, voltado ao processamento de dados militares, que contou, inicialmente, com a colaboração do Google. Depois, os principais parceiros passaram a ser Palantir Technologies, Amazon Web Services, ECS Federal, L3Harris Technologies, Maxar Technologies, Microsoft e Sierra Nevada. Trata-se de um sistema de inteligência artificial (IA) voltado para operações militares, em que a capacidade de ataque bélico é extremamente ampliada – com auxílio de algoritmos, pode ter centenas a milhares de alvos atingidos por hora, sem a necessidade de grande efetivo humano em solo. Em outras palavras, o extermínio de indivíduos e grupos que possam ser considerados (pelos EUA) inimigos, ameaças e/ou terroristas. Sistema similar ao uso de IA em operações militares está sendo utilizado por Israel e Ucrânia.
Em 2022, o Google foi acusado de ter desenvolvido secretamente o chamado Project Vivian, que tinha como objetivo combater a intenção de sindicalização pelos funcionários da empresa. Uma ação judicial em 2019, acionada por funcionários e ex-funcionários, denunciou prática antissindical da empresa, além de expor a contratação do IRI Consultants, empresa que presta serviços de consultorias com a intenção de combater o desenvolvimento de qualquer atuação sindical. Esse não foi um caso isolado, outras Big Techs como Facebook, Microsoft, Amazon, Apple e Uber também conspiraram para sabotar a sindicalização de seus funcionários ou criarem justificativas para a demissão ou bloqueio, no caso da Uber.
Diversas Big Techs colaboraram com o Estado de Israel em seu Apartheid contra o povo palestino, como é o caso da Alphabet e da Amazon, que foram selecionadas para fornecer às agências governamentais israelenses serviços de computação em nuvem, incluindo inteligência artificial e aprendizado de máquina. Outra empresa, a Airbnb, é acusada de permitir o aluguel de imóveis em assentamentos sionistas nos territórios ocupados da Palestina.
O caso Elon Musk
O homem mais rico do mundo, Elon Musk, é o proprietário de uma série de empresas de tecnologia, como a Tesla, que se tornou uma referência no ramo de energia limpa, incluindo carros elétricos e painéis solares, e a SpaceX, a maior no ramo de exploração espacial. O bilionário também está envolvido com empresas como a X (rede social), a Boring Company (escavação de túneis), a Neuralink (neurotecologia) e a xAI (Inteligência Artificial).
Em contradição com o seu discurso favorável ao livre-mercado, segundo o The Times, Elon Musk se beneficiou do apoio governamental dos EUA em cerca de US$ 4,9 bilhões, incluindo subsídios, incentivos fiscais, construção de fábricas, empréstimos com desconto e créditos ambientais. Através de sua empresa espacial, SpaceX, ele também possui diversos contratos de colaboração com a Nasa e as Forças Armadas dos Estados Unidos.
Contudo, apesar de seu explícito envolvimento com os interesses dos EUA, Musk também é um entusiasta de negociações com a China e com a Rússia. As principais fábricas da Tesla se encontram no território chinês, o que levou Musk a pedir pela retirada de sanções dos Estados Unidos contra o regime, além de tecer inúmeros elogios ao comando do Partido Comunista. No contexto da Guerra da Ucrânia, apesar de inicialmente ter disponibilizado os serviços da Starlink para os ucranianos e a Otan, posteriormente passou a defender a necessidade de uma mediação com a Rússia, sinalizando uma aproximação com Vladimir Putin.
Os interesses de Musk se voltaram para a América Latina ao longo da última década, especialmente em relação aos reservatórios de lítio no Brasil, na Argentina, no Chile e na Bolívia. Em 2019, um golpe militar na Bolívia derrubou o presidente de esquerda Evo Morales, com apoio de Trump e Bolsonaro. Após ser acusado no Twitter (atual X) de envolvimento, Elon Musk respondeu: "Vamos dar um golpe em quem quisermos! Lide com isso". No Brasil, em janeiro de 2022, a Agência Nacional de Telecomunicações aprovou o uso de satélites Starlink, da SpaceX, que rapidamente passaram a ser utilizados no garimpo ilegal.
Como a maioria dos donos das Big Techs, Musk por muito tempo esteve alinhado ao Partido Democrata enquanto este esteve no poder. Nos últimos anos, porém, se voltou mais para a extrema-direita, aproximando-se de Donald Trump, Javier Milei, Giorgia Meloni, Viktor Orbán e outros nomes conservadores e neofascistas. Em nome de uma suposta defesa da "liberdade de expressão", o bilionário passou a desafiar abertamente governos social-liberais e socialdemocratas, incluindo aqueles de países aliados ao imperialismo dos EUA, como Austrália, Canadá e França. Em 2024, Musk se engajou abertamente em favor de partidos de extrema-direita contrários à União Europeia, como o AfD (na Alemanha) e o Reform UK (no Reino Unido). Apesar do discurso, Elon Musk removeu perfis no X de opositores a governos autoritários de direita, como o de Erdogan, na Turquia, e o de Modi, na Índia. Em 17 de novembro de 2023, ele também anunciou que os usuários que denunciassem o colonialismo israelense na Palestina seriam banidos, prática que escancara o quanto as redes sociais controladas pelas Big Techs operam os algoritmos no intuito de moldar a narrativa política, cultural e social, em abrangência global, aos interesses ideológicos mais reacionários – um agravamento provocado pelo neoliberalismo, que vai abrindo espaço para o ressurgimento do neofascismo e neonazismo.
Para além do Vale do Silício
Apesar do poderio econômico das empresas dos EUA, elas não são as únicas com relevância e impacto no cenário mundial. Alinhadas às políticas dos Estados Unidos se destacam a Samsung, da Coreia do Sul, e a TSMC (maior fabricante mundial de chips), de Taiwan.
A China se tornou uma das maiores concorrentes dos interesses norte-americanos. Entre suas empresas se destacam Lenovo (smartphones), Huawei (telecomunicações), Alibaba (comércio digital), Baidu (internet, inteligência artificial), Shein (comércio eletrônico) e Xiaomi (produtos eletrônicos). Um dos maiores conglomerados chineses é a Tencent, proprietária do aplicativo WeChat, concorrente do WhatsApp, com cerca de 1,3 bilhão de usuários. Ela também está nos ramos cinematográfico, musical, de processamento de dados, de assistência médica e de comércio eletrônico, além de ter se tornado uma grande acionista de várias empresas de outros países, como Ubisoft (games) e Discord (comunicação).
No campo das redes sociais, a China conta com as empresas ByteDance e Kuaishou, proprietárias do TikTok (1,6 bilhão de usuários) e do Kwai (1 bilhão), respectivamente. O TikTok e o Kwai foram acusados de permitirem a proliferação de propaganda de extrema-direita em diversos países, como França e Argentina. Enquanto Donald Trump, ao longo de 2024, passou a defender o funcionamento do TikTok nos Estados Unidos, na Venezuela o governo de Nicolás Maduro aprovou o seu banimento por permitir conteúdo golpista.
Com menor presença do que as empresas chinesas, vale mencionar o caso do Telegram, pertencente ao russo naturalizado francês Pavel Durov. Com cerca de 900 milhões de usuários em todo o mundo, o aplicativo foi acusado de permitir conteúdos perigosos de maneira indiscriminada, como pornografia infantil, apologia ao neonazismo, tráfico de armas e movimentos jihadistas. Por muitos anos Durov esteve em conflito com o governo Putin, mas ao longo de 2024 o Telegram foi acusado de favorecer propaganda pró-Rússia na guerra da Ucrânia.
As Big Techs e o Brasil
No comércio digital, as empresas de marketplace contam com grande presença. Em 2024, as empresas mais acessadas foram, respectivamente, Mercado Livre (Argentina/Uruguai), Amazon (EUA), Shopee (Singapura), Magazine Luiza (Brasil), OLX (Países Baixos), Shein (China), AliExpress (China), Ifood (Brasil), Casas Bahia (Brasil) e Samsung (Coreia do Sul).
O maior domínio no campo das redes sociais é da Meta, com uma parcela significativa da população possuindo Whatsapp (150 milhões de usuários), Instagram (135 milhões, o terceiro maior país em número de contas na plataforma), Facebook (110 milhões, o quarto em número de contas) e Facebook Messenger (60 milhões). O YouTube, da Alphabet/Google, tem 145 milhões de usuários. Em seguida estão o TikTok (100 milhões), o LinkedIn (75 milhões), o Kwai (60 milhões) o Pinterest (40 milhões), Twitter/X (22 milhões) e o Snapchat (7 milhões).
Reportagem publicada pela Repórter Brasil, em 2022, denunciou que Apple, Google, Microsoft e Amazon usaram em seus dispositivos ouro ilegal de terras indígenas brasileiras. Segundo a matéria, as quatro empresas adquiriram ouro ilegal extraídos de terras indígenas na Amazônia, através das empresas Chimet (italiana) e Marsan (brasileira). Região que, durante o governo de Bolsonaro, viu um crescimento nas investidas do crime organizado voltado para extração de minério, gerando desmatamento, crimes ambientais agravados pelo envenenamento por mercúrio, e assassinatos contra várias etnias indígenas – principalmente os Kayapó e Yanomami.
Em 2023, as Big Techs agiram fortemente para derrubar no Congresso o Projeto de Lei nº 2630, mais conhecido como PL das Fake News; a intenção do PL era regulamentar e responsabilizar as redes sociais pelos conteúdos que são publicados pelos usuários nas plataformas, com o aumento na quantidade de desinformações, publicações conspiracionistas, anticiência (principalmente antivacina), xenofóbicas, misóginas, racistas e, num conjunto maior, discursos da extrema-direita radical – neofascista e neonazista. Em uma ação virtual orquestrada pelas grandes empresas, foram impulsionadas publicações voltadas a criticar o PL como sendo um "ataque à liberdade de expressão", "antidemocrática", etc. Reportagem da Agência Pública demonstrou que o Google pagou à Meta mais de R$ 670 mil em anúncios contra o PL, em menos de dois meses, com o objetivo de fazer uma guerra de narrativas e ampliando a desinformação a toda a sociedade.
O papel do capitalismo digital na manipulação global
No modelo capitalista contemporâneo, a manipulação informacional é uma ferramenta essencial para preservar o domínio de uma minoria privilegiada sobre a maioria da população. Em dezembro de 2024, o Google supostamente errou a cotação do dólar em sua plataforma, criando um cenário de especulação econômica que beneficiou investidores do grande capital. Da mesma forma, interferiu politicamente no Brasil, ocultando informações de candidatos de centro-esquerda e favorecendo a extrema-direita.
Ações como essas mostram que as Big Techs exercem influências econômicas e também políticas diretas, configurando-se como instrumentos de aprofundamento das desigualdades de classe e do poder das classes dominantes globais.
A etapa atual do capitalismo-estatismo, alicerçado nas políticas de maximização da austeridade e da desregulação, é o estágio que acentua uma maior concentração de riqueza e poder nas mãos de poucos. Para garantir sua reprodução, utiliza de um aparato ideológico sofisticado, no qual a desinformação e a manipulação de algoritmos assumem papel central. Esse aparato ideológico vai se firmar não apenas nas redes sociais, mas também através do desenvolvimento de programas e plataformas que possam ser utilizados nas redes públicas de ensino, através de cursos e/ou materiais didáticos e pedagógicos.
O discurso antissocialista, que acusa vozes críticas de "ameaçar a ordem social", é uma estratégia clássica das classes dominantes para enfraquecer movimentos que buscam justiça social e redistribuição de riqueza. No entanto, o verdadeiro caos é provocado pelo desmonte das políticas públicas e dos direitos trabalhistas, promovido por essas corporações para sustentar a concentração de poder e riqueza.
O papel das Big Techs no avanço do neofascismo
As crises do capitalismo, como a de 2008, intensificaram a exploração das massas trabalhadoras e precarizaram suas condições de vida. Incapaz de oferecer alternativas concretas, o capital utiliza a extrema-direita como um bode expiatório para canalizar o descontentamento popular. Movimentos neofascistas, como a Alternativa para a Alemanha (AfD), são exemplos de como o capital promove o divisionismo para enfraquecer as lutas coletivas.
Nesse contexto, as Big Techs não apenas replicam as estratégias do totalitarismo, como a manipulação da verdade e o isolamento informacional em bolhas, mas também criam mecanismos de controle social por meio da engenharia algorítmica.
A nomeação de figuras como Dana White, do UFC, ao conselho da Meta é emblemática. White, com sua retórica autoritária e alinhada à desregulamentação, ilustra como essas corporações reforçam discursos que deslegitimam a soberania popular e fortalecem as elites corporativas.
Outro exemplo é a decisão da Meta de abolir a checagem de fatos, substituindo-a por um sistema de "notas da comunidade". Apesar de se apresentar como uma iniciativa de “liberdade de expressão”, essa mudança legitima a disseminação de desinformação, favorecendo discursos de extrema-direita e ultrarreacionários. Logo que tomou posse em seu segundo mandato, Donald Trump anunciou investimento de US$ 500 bilhões para um projeto de infraestrutura de Inteligência Artificial (IA), tendo como principais beneficiárias Oracle, Softbank e OpenAI.
Rumo a uma alternativa socialista autogestionária
A lógica do ultraliberalismo promove a alienação e impede a construção de uma consciência de classe, necessária para transformar as estruturas sociais. Para superar essa realidade, é urgente a união dos trabalhadores em escala global, contrapondo-se ao poder concentrado das corporações digitais.
A classe trabalhadora organizada deve atuar como mediadora da soberania popular, pressionando para que seja regulado o poder das Big Techs, taxando suas operações e redistribuindo os frutos da riqueza gerada tecnologicamente. Além disso, deve ser priorizada a criação de plataformas públicas e cooperativas, voltadas para o bem comum, colocando a tecnologia a serviço das maiorias sociais.
A emancipação das massas só será possível por meio da luta coletiva contra a exploração capitalista. Resgatar a centralidade do trabalho sobre o capital e fortalecer mecanismos verdadeiramente democráticos são passos fundamentais para garantir que a era digital não seja apenas mais uma etapa na opressão das classes populares, mas uma oportunidade de construir uma sociedade solidária e socialista.
Organização Socialista Libertária
Agosto de 2025
