Contra a burocracia universitária e o privilégio. Greve dos trabalhadores da USP começa com força!

Greve aprovada com ampla mobilização

Em um clima de forte mobilização e crescente indignação, os trabalhadores técnico-administrativos da Universidade de São Paulo (USP) aprovaram, em assembleia amplamente representativa, uma greve por tempo indeterminado a partir de terça, 14 de abril. A decisão foi precedida por dezenas de reuniões em diversas unidades da universidade e expressa o acúmulo de insatisfação diante das perdas salariais, da sobrecarga de trabalho e da falta de valorização daqueles que garantem o funcionamento cotidiano da instituição.

O estopim imediato para a greve foi o anúncio, por parte da reitoria, de uma gratificação mensal de R$ 4.500, destinada exclusivamente aos docentes. O impacto previsto é de quase R$ 240 milhões por ano. A medida foi amplamente criticada pelos funcionários por representar uma quebra do princípio da isonomia e por aprofundar desigualdades internas já existentes. A assembleia que deliberou pela greve reuniu grande número de participantes, o que demonstra a força e a legitimidade da decisão coletiva.

Isonomia, recomposição salarial e direitos

Entre os principais eixos da pauta aprovada está a incorporação de um valor fixo de R$ 1.600 aos salários dos funcionários – proposta apresentada como forma de dividir o mesmo montante destinado à gratificação concedida aos docentes. Essa medida elevaria o piso dos menores salários da categoria ao patamar histórico de três salários mínimos, reivindicação do sindicato.

Também integra a pauta o abono das chamadas “horas de ponte” e do recesso de fim de ano. Atualmente, os funcionários precisam compensar essas horas, enquanto os docentes não têm a mesma obrigação. A demanda por esse abono está articulada com a campanha salarial unificada das universidades estaduais paulistas, que envolve também os trabalhadores da Unicamp e da Unesp – o que reforça o caráter conjunto da luta em defesa da valorização do trabalho nas universidades públicas.

Além disso, as reivindicações incluem a defesa do Bilhete Único Especial (BUSP) e a luta contra a escala 6×1, ambas direcionadas também aos trabalhadores terceirizados. A aproximação entre trabalhadores e estudantes fortalece o movimento e amplia sua capacidade de pressão, como mobilizações conjuntas anteriores já demonstraram.

Unidade com estudantes e defesa da permanência

A mobilização dos trabalhadores vem despertando o fortalecimento da organização estudantil em defesa da permanência e das condições de estudo. Entre os pontos de convergência entre funcionários e estudantes estão o reajuste das bolsas estudantis, as melhorias na infraestrutura universitária e de moradia, o reajuste salarial e melhoria das condições de trabalho do estágio e a preservação da autonomia dos espaços estudantis dentro da universidade.

Além da atual defasagem das bolsas de permanência, a política de austeridade da USP tem desmontado a sua estrutura interna, diminuindo o número de funcionários técnicos contratados, que passam a ser substituídos por estagiários, que além de receberem salários baixos, trabalham frequentemente em desvios de função e sem supervisão. Enquanto isso, esses números de estagiários são contabilizados como “bolsistas”, falsificando a política de trabalho mal remunerado da USP.

Unidade com estudantes e defesa da permanência

Cerca de mil estagiários mantém centenas de escritórios funcionando, como uma das principais forças de trabalho da universidade, advindo justamente da imensa massa de estudantes sem acesso a permanência e sujeitos a qualquer condição de exploração, riscos de segurança e assédios.

Os gastos com a permanência, que ocupam apenas 2,77% do orçamento atual, são menores que os da Unicamp, a estadual irmã que usa cerca de 3,15% da sua receita para esse fim. Se houvesse uma equalização da porcentagem de gastos da USP com os da Unicamp, o orçamento para a permanência estudantil deveria aumentar em 17%, o que garantiria mais R$ 45 milhões para mais e maiores bolsas PAPFE, reforma e ampliação das moradias e no geral, a expansão necessária para a permanência estudantil. Esse valor ainda representaria menos que 1/4 do bônus que o reitor quer dar para os professores.

Uma greve que expressa contradições históricas

A atual greve expressa contradições históricas presentes na organização da universidade. Desde sua fundação, em 1934, a USP foi concebida como parte de um projeto de reorganização política e intelectual das elites paulistas, voltado à formação de quadros dirigentes e à produção de conhecimento estratégico. Ao longo das décadas, consolidaram-se estruturas institucionais marcadas por hierarquias rígidas e pela separação entre aqueles que concentram poder decisório e aqueles que garantem as condições materiais de funcionamento da universidade. Esse histórico ajuda a compreender os conflitos atuais relacionados à valorização do trabalho e à distribuição de recursos.

Nas últimas décadas, a expansão de políticas neoliberais na educação aprofundou esse cenário. A universidade passou a incorporar práticas baseadas na competição, na produtividade individual e em gratificações seletivas, enfraquecendo o caráter público da instituição e contribuindo para a precarização do trabalho. A lógica do mercado avança sobre a universidade, estimulando parcerias empresariais e a adaptação da pesquisa aos interesses econômicos imediatos, em detrimento de áreas fundamentais à formação crítica e ao desenvolvimento social.

Mobilização crescente e exigência de negociação

Nos dias que antecederam a decisão pela greve, centenas de trabalhadores participaram de reuniões de unidade e de atos organizados em diferentes espaços da universidade. Entre as iniciativas recentes, destaca-se uma paralisação com ato em frente à reitoria durante reunião do Conselho Universitário, que reuniu mais de 2 mil pessoas e evidenciou o elevado grau de mobilização da categoria. Após a aprovação da greve, foi protocolada solicitação formal para a abertura imediata de negociação com a reitoria, com o objetivo de discutir as reivindicações aprovadas coletivamente.

Mais do que uma resposta a medidas pontuais da administração, a greve em curso reforça um debate mais amplo sobre o papel da universidade pública, a valorização do trabalho e a distribuição justa dos recursos institucionais. A defesa da isonomia, das condições dignas de trabalho e da permanência estudantil está diretamente ligada à defesa de uma universidade pública, gratuita e comprometida com as necessidades da classe trabalhadora.

Construir a greve dos trabalhadores e estudantes da USP

Diante desse cenário, reafirmamos nosso apoio à greve dos trabalhadores técnico-administrativos da USP e à unidade entre trabalhadores, estudantes e demais setores da comunidade universitária.

A mobilização que se inicia aponta para a necessidade de enfrentar os privilégios, combater as desigualdades internas e defender o caráter público da universidade. É a janela que se abre para derrotar uma tentativa reacionária de comprar os professores e, assim, poder empurrar um retrocesso geral ainda maior.

Organização Socialista Libertária
Abril de 2025