O Brasil sedia a COP30 em Belém, vendendo ao mundo a imagem de uma liderança climática, comprometida com a Amazônia. Contando com a participação de empresas como Exxon, Braskem, Samarco, Vale e JBS, a conferência expõe a hipocrisia capitalista do chamado greenwashing, no qual as mesmas marcas responsáveis pela depredação do planeta buscam se apresentar como sustentáveis e alinhadas às metas climáticas.
É fundamental desmascarar esse jogo de cena, pois o grande projeto segue sendo o de aprofundar formas de exploração, destruição e extermínio da natureza e povos originários e tradicionais — nenhuma relação com promover a soberania nacional e a autodeterminação dos povos que aqui habitam. Isso acontece porque as Conferências das Partes (COPs) não são fóruns para "salvar o planeta", mas sim o contrário, são balcões de negócios onde o capital global, mediado pelos Estados nacionais, redefine as regras da acumulação para garantir sua própria sobrevivência. A crise climática não será resolvida por aqueles que a criaram e com ela lucram.
Nossa crítica não se confunde com a argumentação da extrema-direita, que se baseia no negacionismo científico e na defesa da aceleração da exploração predatória de recursos do planeta. O que levou governantes como Donald Trump e Javier Milei a boicotarem a COP30 foi a negação de qualquer compromisso com a preservação dos ecossistemas, ainda que de maneira superficial e farsesca, promovendo assim uma disputa ideológica com a intenção de convencer a classe trabalhadora a defender os interesses das grandes mineradoras e petroleiras, além do agronegócio, na sanha desenfreada pela exploração dos recursos da natureza.
A "governança global" como fracasso estrutural
Três décadas de COPs provaram seu total fracasso em frear o aquecimento global. O motor da crise climática é o próprio sistema capitalista-estatista, baseado na necessidade intrínseca de crescimento infinito, acumulação incessante de valor e exploração dos trabalhadores e da natureza.
As COPs ambicionaram apresentar uma "governança global", acima das classes oprimidas e até mesmo dos Estados nacionais, que poderia regular o sistema. Na prática, elas serviram apenas para gerenciar conflitos intercapitalistas, legitimar o "capitalismo verde" e desmobilizar a luta, canalizando a justa indignação popular para o lobby institucional, para a espera por acordos e para a confiança no Estado, nas empresas e nas ONGs, desarmando a ação direta popular.
A COP30 é a vitrine das "falsas soluções" que representam a nova fronteira da acumulação capitalista. Os mercados de carbono, uma financeirização da atmosfera, se baseiam no fornecimento de créditos para empresas poluidoras do Norte Global continuarem poluindo, enquanto territórios no Sul (como terras indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais no Brasil) são transformados em "ativos de compensação". A realidade é de grilagem de terras, expulsão de comunidades, e o direito de poluir transformado em commodity. Sob o discurso de "valorizar a floresta em pé", empresas também avançam sobre a biodiversidade e os saberes ancestrais, patenteando-os e transformando-os em produtos privados.
Mesmo a substituição de combustíveis fósseis por outras matrizes (como eólica, solar, de hidrogênio ou lítio) mantém intacta a lógica do consumo exacerbado, da produção em larga escala e da indústria extrativa. Esta "transição" cria novas "zonas de sacrifício", exigindo mais mineração, mais barragens e mais exploração, apenas mudando o vetor da destruição.
O engodo estatal e a ilusão desenvolvimentista
Como anarquistas, nossa crítica é radical: o Estado não é um árbitro neutro que pode ser "disputado" ou "pressionado" a agir pelo clima. O Estado é a forma política da dominação de classe e sua função primordial é garantir a ordem e a acumulação capitalista, reprimindo qualquer ameaça a ela.
Assim, rejeitamos as ilusões propagadas por setores do reformismo e da socialdemocracia que acreditam na ilusão da "vontade política", pois o problema é a própria natureza do Estado, que, mesmo sob governos "progressistas", atua como gerente do capital para garantir a inserção do país na divisão internacional do trabalho, com a reprimarização da economia, onde o agronegócio tem um papel fundamental.
Da mesma forma, a defesa de um "capitalismo nacional" ou de "empresas estatais fortes" (como a Petrobras) não são soluções, uma vez que o Estado atua como sócio e facilitador do capital transnacional. A exploração da camada do pré-sal ou o avanço sobre a Bacia da Foz do Amazonas não são manifestações de soberania, são aprofundamento do extrativismo predatório sob a bandeira nacional.
A conjuntura brasileira por trás da COP30
No Brasil, a realização da COP30 em Belém aparece como um esforço do capitalismo-estatismo em reposicionar o protagonismo do país na cena internacional ambiental, enquanto internamente mantém e até intensifica a lógica extrativista e de acumulação. O governo brasileiro apresenta o evento como “a COP da implementação” e parte de um grande “mutirão global” contra a mudança do clima, conforme diz oficialmente a presidência da COP30.
Entretanto, esse discurso autoproclamatório esconde profundas contradições: mesmo dentro do Congresso Nacional é notória a resistência crescente à pauta ambiental através dos diversos governos de turno; um exemplo importante é a aprovação da perfuração na Foz do Amazonas como a nova fronteira de exploração de petróleo no Brasil, na costa norte do país. Outro fator é que o país segue longe de cumprir suas próprias metas de redução nas emissões, mesmo que algumas quedas no desmatamento tenham sido registradas.
Também é relevante destacar que diversas organizações denunciam a intensa infiltração de lobistas de combustíveis fósseis, agronegócio e mineração nos espaços de negociação da COP30 e exigem da presidência brasileira transparência real e limitação de influências corporativas.
Na prática, o Brasil usufrui da visibilidade internacional pela Amazônia e pela “liderança climática” para reforçar seu papel como exportador de commodities e palco de grandes projetos de infraestrutura, enquanto comunidades tradicionais e povos indígenas seguem enfrentando expulsões, grilagem e violência. Logo, a COP30 no Brasil funciona como vitrine que mascararia, sob o discurso do cuidado e da sustentabilidade, a continuidade desse modelo predatório.
Nossa perspectiva: Socialismo Libertário e Ecologia Social
A COP30 atrai para Belém uma diversidade de movimentos sociais, ONGs e entidades institucionais. Nossa tarefa não é "influenciar" a cúpula oficial, mas fortalecer as lutas reais da nossa classe que acontecem apesar da cúpula e contra ela. Nosso papel é atuar para que os movimentos populares não sejam cooptados pelos governos, por partidos institucionais ou por ONGs financiadas pelo capital "verde", enquanto apresentamos nosso programa anticapitalista dentro dos movimentos, combatendo as ilusões reformistas e apontando o horizonte revolucionário. Entendemos que não devemos ver as "cartas de intenções" como ferramentas de mudança, pois a história mostra que as conquistas só vêm pela ação direta: greves, ocupações, retomadas de terra, bloqueios e autodefesa popular.
A aposta não pode estar no Estado ou nas grandes instâncias internacionais, mas justamente no fortalecimento das lutas populares e comunitárias que desafiam o extrativismo predatório e a acumulação capitalista, a partir da base, como podemos verificar nos exemplos dados pelos povos indígenas no Pará. Como em fevereiro, a greve em unidade com outros setores das classes oprimidas em defesa da educação indígena; e na própria COP, onde em contraponto ao discurso oficial de sustentabilidade, seguem lutando por demarcação, sobrevivência e respeito em seus próprios territórios. Na última terça-feira, dia 11, a conferência foi marcada por uma ação direta: a ocupação da chamada Blue Zone (zona restrita da COP) por indígenas do Baixo Tapajós. O ato, liderado por representantes de diversos povos da região, denunciou o cerco imposto aos territórios tradicionais e o caráter excludente do evento, que reserva os espaços de decisão e visibilidade a governos e grandes corporações. Esse episódio expõe de maneira incontornável que a verdadeira luta pela vida e pela floresta não está nos palcos oficiais da diplomacia verde, mas na resistência organizada das comunidades que enfrentam cotidianamente o avanço do capital.
A crise é global, e o capital não tem pátria. A única solução real virá desde baixo, com a construção de um poder popular autogestionário internacional, que contribua para construir uma ecologia social, associando a preservação do planeta com a luta contra todas as dominações. A crise climática só será superada com a destruição do capitalismo e do Estado, e sua substituição por uma sociedade baseada na autogestão social. A produção deve ser controlada pelos trabalhadores, os territórios pelas comunidades e a sociedade organizada de forma federativa.
Não lutamos por um capitalismo "sustentável", pois isso é uma contradição em si. A escolha não é entre o capitalismo fóssil da extrema-direita e o capitalismo "verde" da socialdemocracia, pois ambos são caminhos para a barbárie. A única alternativa real é a ruptura total com o sistema!
CONSTRUIR O PODER POPULAR AUTOGESTIONÁRIO!
AÇÃO DIRETA CONTRA O ESTADO E O CAPITAL!
AVANÇAR RUMO AO SOCIALISMO LIBERTÁRIO!
Organização Socialista Libertária
Novembro de 2025
