Esgotado, governo Lula/Alckmin quer conciliação com o golpismo

Só a luta de classes vai derrotar o projeto dos ricos!

Passados cerca de um ano e meio do governo de frente ampla Lula/Alckmin, é possível concluir o que já havíamos previsto: não há qualquer disposição, sequer de negociação, para algum avanço das pautas das classes oprimidas. A imagem da subida à rampa de Lula ao lado de figuras que simbolizavam as classes oprimidas foi, sim, histórica: uma grande peça de marketing que só tinha o objetivo de angariar capital político para ganhar manchetes mundo afora e viabilizar os primeiros meses de governo. De janeiro de 2023 para cá, os avanços foram superficiais, o capital segue com seu projeto neoliberal de precarização das condições de vida, e a extrema-direita se firma como um importante pólo composto por amplos setores das classes dominantes, e com apoio popular.

As grandes demandas populares que, em parte, conduziram Lula de volta à presidência não foram concretizadas. Muito pelo contrário, o movimento estudantil não viu a revogação do Novo Ensino Médio; o movimento sindical não viu a revogação das reformas trabalhista e da previdência; o movimento indígena não viu as demarcações de terras no ritmo necessário; o movimento negro segue vendo a brutalidade policial nas periferias; o movimento feminista não viu a redução nos feminicídios; o movimento camponês não viu a reforma agrária; o movimento dos sem-teto não viu a reforma urbana – a lista é longa.

Enquanto isso, o grande projeto do governo são as demandas dos capitalistas, como o Arcabouço Fiscal, com cortes de investimentos públicos e arrocho salarial para os servidores. Isso não é nenhuma novidade para nós anarquistas. Sempre alertamos que qualquer grupo político que suba ao poder por meio do parlamento burguês terá que jogar o jogo com as regras do capital. No entanto, dessa vez não há nem a tentativa de distribuição das migalhas costumeiras oferecidas pelos governos reformistas de esquerda.

Silêncio sobre 1964

Outro episódio simbólico foi a orientação de Lula para que o governo não celebrasse a memória dos 60 anos do Golpe Militar de 1964, regime que oprimiu, prendeu, torturou e matou, a serviço do capital e do imperialismo estadunidense. Num contexto em que Bolsonaro e o partido fardado planejaram um golpe, silenciar sobre a ditadura de 1964-1985 é mais um gesto em busca de uma conciliação feita à base da mordaça.

Enquanto o governo Lula/Alckmin não oferece qualquer alternativa e segue a cartilha neoliberal, a maioria dos movimentos populares ainda titubeia com gestos muito tímidos, e na prática atua como correia de transmissão do governo. Com exceção de algumas mobilizações localizadas e de ganhos pontuais, lutas mais amplas vêm sendo freadas pelo burocratismo das direções, pelos acordos de gabinete e pelo calendário eleitoral.

Caso Marielle e terrorismo de Estado

Seis anos depois do assassinato de Marielle e Anderson, foram presos aqueles que, segundo a Polícia Federal, são os mandantes do crime: os políticos Domingos e Chiquinho Brazão, além do delegado de polícia Rivaldo Barbosa. A revelação mostra a forte conexão das milícias com a própria institucionalidade burguesa-burocrática que, como dizem, precisa ser preservada.

A chamada Operação Verão, em que a PM de São Paulo fez mais de 50 mortos entre fevereiro e março na Baixada Santista, é outro episódio macabro que escancara a ilusão do Estado Democrático de Direito, que nunca chegou para a maior parte da população, formada pela classe trabalhadora mais precarizada.

Seguimos acreditando que a luta de classes, por meio da ação direta, é o único caminho para derrotar a extrema-direita e pôr abaixo esse estado de coisas que só reproduz morte e opressão. A construção e o fortalecimento de movimentos sociais independentes e combativos são os passos para fazer avançar as demandas populares, destruir esse sistema e forjar o socialismo libertário.

Texto originalmente publicado no Libera 180 (jun-ago de 2024).