Fim da 6×1 e Breque dos Apps apontam caminho da luta
Apesar da propaganda governista, classe trabalhadora segue em condição precária. luta de classes independente é a única saída para obter conquistas
A propaganda governista exalta o baixo nível de desemprego e o aumento do rendimento médio dos trabalhadores, mas os números também revelam a precarização da nossa classe, principalmente nos setores de salários mais baixos. O governo Lula/Alckmin não reverteu medidas como a Lei das Terceirizações e a Reforma Trabalhista, que foram aprofundadas nos últimos anos. Por outro lado, por fora da estrutura da burocracia sindical, importantes lutas vêm fazendo frente a esse cenário, como a mobilização contra a escala 6×1 e o Breque dos Apps.
Nos setores mais precarizados do trabalho com carteira assinada, ganha corpo a luta pelo fim da escala 6×1. Iniciada pelo Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), a pauta se destacou nas redes sociais e teve apoio das bases de amplas categorias. No fim do ano passado chegou ao Congresso Nacional, com um projeto de lei para implantar uma jornada de trabalho de 36 horas semanais e uma escala padrão de 4 dias de trabalho por 3 dias de descanso. A redução da jornada de trabalho é uma pauta histórica da classe trabalhadora, que por muito tempo foi largada pela burocracia sindical, encastelada na institucionalidade dos acordos com os patrões. Entidades sindicais que pregam a luta classista, como a CSP-Conlutas, têm apoiado as lutas de base contra a 6×1 para além dos debates no Congresso, porém as grandes centrais (como a própria CUT) ainda mantêm distância do tema, e apenas agitam essa bandeira como palavra de ordem vazia, sem construção real nas bases.
Entre os trabalhadores informais, o Breque dos Apps é outra importante luta que ganhou espaço nos últimos tempos. Os entregadores por aplicativos se mobilizam há alguns anos, com massivas paralisações nacionais para demandar melhoria dos rendimentos e direitos. Tratados como “parceiros” de empresas gigantes da tecnologia (muitas delas transnacionais que valem bilhões de dólares), esses trabalhadores compreendem que são explorados e que só a luta coletiva pode arrancar conquistas dos de cima.
Enquanto isso, o governo Lula/Alckmin mal se esforça para se diferenciar dos governos anteriores. Sobre a escala 6×1, os governistas se resumem a defender a importância de “estabelecer o diálogo na sociedade” depois que a discussão já foi colocada na sociedade. Pesquisa feita pelo Datafolha no fim do ano passado aponta que 64% dos brasileiros defendem o fim da escala 6×1. Mas o governo de Frente Amplíssima está comprometido com as entidades patronais e com o mercado financeiro, por isso não encampa esta luta tão importante. Em relação aos direitos dos entregadores, em 2023 o governo federal estabeleceu um grupo de trabalho envolvendo entidades sindicais e patronais, mas dessa “negociação” nada avançou.
Os movimentos contra a escala 6×1 e pelos direitos dos entregadores por aplicativos demonstram a importância e a atualidade da luta de classes para arrancar conquistas dos de cima. As categorias mais precarizadas da classe trabalhadora têm enxergado que a propaganda do governismo não enche a barriga das famílias, muito menos superam as profundas desigualdades do país.
Apesar das mobilizações recentes, os atos do Primeiro de Maio deste ano ficaram longe de refletir as reais aspirações da classe trabalhadora. À exceção de algumas manifestações chamadas por entidades verdadeiramente de luta, os atos organizados pelas grandes centrais e sindicatos foram mais do mesmo do sindicalismo amarelo, com grandes shows e até sorteio de carros, acompanhados de discursos pelegos e governistas. A distância das cúpulas da burocracia sindical da realidade da classe trabalhadora é mais uma demonstração da urgência da luta de classes, independente de patrões e governos.
Texto originalmente publicado no Libera 182 (jan-jul de 2025).