Enquanto, no exterior, o governo de Donald Trump exibe a face mais agressiva do imperialismo dos EUA — com a invasão da Venezuela, ataques ao Líbano e ao Irã, entre outras ações violentas —, internamente ele consolida um aparato repressivo próprio: o ICE, Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA. Sob o pretexto de combater a “imigração ilegal”, agentes mascarados e não identificados perseguem e sequestram pessoas com base em sua cor de pele e origem nacional, encaminhando-as para centros de detenção que funcionam como campos de concentração, onde até crianças e recém-nascidos são mantidos. Muitos acabam sendo deportados a seus países de origem, a maior parte na América Latina. A violência das ações tem provocado respostas nas ruas, com ação direta para denunciar os sequestros de trabalhadores imigrantes e conter o avanço autoritário nos bairros.
Criado em 2002, no contexto da "guerra ao terror", o ICE passou por uma rápida expansão no último ano, de 10 mil para 22 mil agentes. O recrutamento de novos funcionários se deu com apelos a "americanos patriotas qualificados de todo o país", com forte conteúdo nacionalista. Algumas propagandas usam a figura do Tio Sam e retomam símbolos da expansão para o oeste dos EUA, com tons de supremacismo branco. Analistas apontam direcionamento dos anúncios para recrutar o eleitorado mais radical de Trump, que prometeu a deportação de 1 milhão de imigrantes ilegais por ano. As exigências para ingresso no ICE foram reduzidas, e a agência tem sido cada vez mais composta por trabalhadores subempregados trumpistas. No contexto das eleições de meio de mandato, em que Trump busca manter maioria republicana no Congresso, a política do ICE pretende radicalizar ainda mais esse eleitorado.
Assassinatos em Mineápolis e sequestro de crianças
O ápice desta brutalidade se deu na cidade de Mineápolis, no Minnesota. No dia 7 de janeiro, agentes do ICE assassinaram a sangue frio Renée Nicole Good, de 37 anos, baleada dentro do próprio carro, enquanto atuava como observadora legal. A revolta com esse crime foi amplificada pelas declarações de Donald Trump, do vice-presidente J.D. Vance e da secretária de segurança Kristy Noem, que justificaram a ação, chamando a vítima de “esquerdista perturbada” e classificando sua atitude como “terrorismo doméstico”. A violência se repetiu semanas depois, em 24 de janeiro, com a execução do enfermeiro Alex Pretti, também de 37 anos, que foi cercado por agentes e sofreu dez tiros em um intervalo de cinco segundos. A administração Trump novamente responsabilizou a vítima, alegando que Pretti queria "massacrar agentes". Tanto Renée quanto Alex eram cidadãos estadunidenses e brancos, e foram assassinados ao demonstrar solidariedade com os imigrantes perseguidos, o que demonstra que o governo dos EUA abandonou qualquer ilusão de que respeita direitos fundamentais.
As operações do ICE têm chocado pelos métodos adotados. Ainda em janeiro, também em Mineápolis, a agência sequestrou Liam Conejo Ramos, de apenas cinco anos de idade, após falhar em usá-lo como isca para prender sua mãe, de origem equatoriana, que havia entrado no país de forma legal. Uma violência ainda mais sombria ocorre a portas fechadas nos centros de detenção, onde pessoas são submetidas a torturas, estupros e até assassinatos. Essa realidade consolida um estado de exceção, no qual o Estado rejeita qualquer legalidade para atuar com pura violência contra setores específicos da população, caminhando para um cenário de barbárie.
Conivência bipartidária das classes dominantes
Tudo isso acontece tendo as instituições dos EUA como cúmplices: elas permitem que o governo Trump siga cometendo seus crimes, quando não estimulam essas práticas. Mesmo depois da ampla divulgação das atrocidades cometidas pelo ICE, o legislativo está encaminhando a aprovação de um aumento de US$ 10 bilhões para o orçamento do órgão repressivo, com apoio inclusive de parlamentares democratas. Essa conivência bipartidária escancara que o problema não é apenas um governo ou um indivíduo, mas um sistema político e econômico que, para manter sua dominação, aprofunda o autoritarismo sobre as classes oprimidas.
Assim, esses episódios não são meras anomalias, mas a expressão clara da função do Estado no capitalismo: a de ser um gestor dos negócios comuns das classes dominantes e um instrumento de coerção organizada contra as classes oprimidas. A violência do ICE e o aumento no seu financiamento são a materialização de um consenso entre as classes dominantes, que, independentemente de suas disputas retóricas, convergem na necessidade de manter, por meio do terror estatal, a disciplina social, a divisão racial e as fronteiras que sustentam a acumulação de capital. A “exceção” autoritária é, portanto, uma possibilidade sempre disponível, ativada quando a dominação de classe exige uma repressão mais nua e crua. Lutar contra essa violência é, portanto, lutar contra a própria estrutura de dominação que a produz. Nesse caso é importante lembrar que o ICE não é um aparelho paralelo às instituições, mas sim um instrumento criado e financiado dentro do pleno funcionamento dos poderes.
A resposta popular: da auto-organização comunitária à greve geral
A resposta veio nas ruas, de forma contundente. Os moradores de Mineápolis estão se insurgindo contra as investidas violentas do ICE, se organizando para monitorar as ações da agência e avisando vizinhos quando eles se aproximam, além de abrigar e esconder imigrantes para não serem sequestrados. Essa resistência culminou em 23 de janeiro, quando foi declarada uma paralisação geral em Minnesota, que mobilizou dezenas de milhares de trabalhadores em um ato de rua, mesmo com uma sensação térmica chegando por volta de -20ºC. Diversos sindicatos construíram a mobilização e comércios fecharam, e uma nova mobilização massiva foi realizada no dia 30. As mobilizações se espalharam para Nova Iorque, Detroit, Los Angeles, Chicago e Washington D.C. A classe trabalhadora está enviando com clareza sua mensagem a Trump e às instituições estadunidenses. Esta é a verdadeira frente de batalha: a auto-organização popular contra a máquina de repressão estatal.
O contexto do avanço do autorismo nos EUA demonstra que, seja lá ou em qualquer outro lugar do mundo, a resposta não virá pelas instituições do sistema, mas sim pela organização independente e da mobilização direta da classe trabalhadora. A luta em Mineápolis é um exemplo que mostra: só a ação direta massiva e a solidariedade de classe podem enfrentar e derrotar o projeto de morte das classes dominantes.
Organização Socialista Libertária
Fevereiro de 2026
