Indígenas denunciam ataques no Mato Grosso do Sul. Solidariedade aos povos que resistem!
Comunidades indígenas Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul denunciam uma série de ameaças e ataques nos últimos dias, intensificados depois do segundo turno das eleições. As denúncias incluem incitações a envenenamento das fontes de água, incêndios, atropelamentos e incitações a assassinatos. A eleição de um Congresso ainda mais reacionário é outro componente de pressão sobre as aldeias, mas a violência contra indígenas na região é histórica e constante. A OSL manifesta solidariedade às comunidades, que resistem bravamente em defesa de seus direitos.
Os povos originários resistem há mais de 500 anos em uma guerra permanente contra a colonização, a apropriação de seus territórios e a destruição de seus modos de vida. O que começou com a expansão colonial continua sob o capitalismo, que transforma terras, florestas e rios em mercadorias para alimentar o agronegócio, o garimpo e a especulação imobiliária. Essa violência não é um desvio do sistema ou política de algum governo de turno, mas parte da própria lógica de acumulação e dominação.
A raiz do problema está na transformação da natureza e da vida em fontes de lucro, sustentada pela concentração da propriedade e pelo poder político e econômico das classes dominantes. Os governos, independentemente de como são chamados, perpetuam a lógica dessa estrutura. Enquanto Bolsonaro representou abertamente os interesses do agronegócio e dos setores mais reacionários, o governo Lula-Alckmin também mantém projetos que ameaçam territórios e ecossistemas, como a exploração de petróleo na Margem Equatorial. A conciliação com os interesses do capital não supera a destruição ambiental nem garante a autodeterminação dos povos.
A vinculação dos movimentos populares com os governos, tampouco, pode garantir alguma segurança para os povos originários. A tão veiculada “representatividade” no governo também não resolve a questão, já que o poder econômico do agronegócio é determinante nas resoluções políticas tomadas, deixando a questão indígena mais em um âmbito cultural do que de avanço concreto de direitos fundamentais para a subsistência dos diversos modos de viver das diferentes etnias, principalmente no que corresponde à defesa e manutenção de seus territórios.
Apesar da visibilidade pós-eleição, o avanço criminoso sobre as terras nunca parou e os dados do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) evidenciam a continuidade dessa violência. Em 2025 aumentaram as agressões físicas, as invasões de territórios e outras violações contra os povos indígenas. Os assassinatos chegaram a 258, um crescimento de aproximadamente 22%. Esses números revelam não apenas a brutalidade dos ataques, mas também a incapacidade e a falta de vontade política do Estado de assegurar os direitos e a segurança dos povos originários. Além disso o assédio de grileiros, pistoleiros, especuladores imobiliários, fundações estatais de preservação, prefeituras e outros órgãos, aos movimentos de retomada, tornam o cotidiano das comunidades ainda mais desafiador e, muitas vezes, mortal.
Não basta substituir governos ou ampliar a representação institucional: é necessário enfrentar as estruturas econômicas e políticas que sustentam a exploração. Isso significa defender a autodeterminação dos povos originários, seus territórios e suas formas próprias de organização, fortalecendo sua autonomia diante do Estado, do capital e de qualquer força que pretenda decidir por eles. Significa também construir alianças entre as lutas indígenas, camponesas e da classe trabalhadora, sem subordinar suas reivindicações aos interesses eleitorais ou às instituições que reproduzem a ordem vigente. Enquanto para essas populações a terra é o espaço em que estão implicadas todas as relações de produção e reprodução da vida, para os capitalistas ela significa lucro e acumulação, o que se traduz nas judicializações de seus movimentos, e nos assassinatos e expulsões. Pensando nisso, é urgente a construção de uma linha de autodefesa para os movimentos pela terra no Brasil.
Não haverá verdadeira emancipação enquanto a terra for mercadoria, a natureza for fonte de lucro e os povos forem submetidos aos interesses dos poderosos. A luta dos povos originários é parte fundamental da luta por um mundo sem exploração, dominação e destruição ambiental. A sobrevivência desses povos, que há cinco séculos se organizam para combater o avanço da apropriação de seus territórios, é fundamental para deter a devastação burguesa e imperialista, evidenciar as lutas populares do presente e construir um futuro socialista. Por isso, estamos ombro a ombro com suas reivindicações de demarcação e autodeterminação, e contra qualquer forma de opressão realizada contra suas populações!
Organização Socialista Libertária
Outubro de 2026