Luta popular para abandonar a ilusão na farsa eleitoral
Se as eleições de 2024 deixam alguma lição, é a de que a aposta da esquerda na via eleitoral e institucional leva à paralisação dos movimentos e, nem mesmo, garante resultados nas urnas. Com programas cada vez mais recuados, não muito diferentes do centro e da direita, as candidaturas da esquerda majoritária foram derrotadas nas grandes cidades.
O resultado eleitoral não seria um problema para o conjunto dos movimentos populares se eles seguissem um calendário de lutas independente dos partidos e governos de turno. Mas, desde o começo do ano, pouco se avançou além de greves e mobilizações pontuais de algumas categorias e movimentos sociais – o recente movimento contra a escala 6×1 se deu por fora dos movimentos tradicionais. O motivo é que, pensando nas eleições, os grandes partidos à esquerda agem ativamente para que os movimentos deixem de fazer lutas nas ruas e apostem mais nas instituições, por meio de acordos de gabinete, audiências com parlamentares e ações na justiça. É dessa forma que os movimentos se burocratizam e perdem força para lutar.
Todo esse cenário é muito influenciado pela política de frente ampla do governo Lula-Alckmin, que aposta na velha fórmula de conciliação com os grandes empresários e autoridades do Congresso e do Judiciário. Apesar de alguns dados positivos, como a queda do desemprego e as políticas de ajuste fiscal, a falta de qualquer mudança estrutural mantém o abismo social e a enorme precarização do trabalho, além de desarmar as classes oprimidas de seus instrumentos de resistência, como as greves, atos de rua e outros tipos de protesto.
As eleições burguesas moldam a sociedade de forma tão profunda que mesmo os partidos e correntes mais revolucionários que participam do processo eleitoral parecem deslocados da realidade nesse período. Em nossa leitura, a participação nas eleições acaba por gerar ilusão na democracia burguesa, além de provocar confusão e divisão entre a própria militância desses partidos. Algumas vezes, essa tática eleitoral faz com que os partidos mais combativos passem a abrandar o discurso, abrindo mão de um programa socialista em troca da eleição de uma ou outra candidatura – o que pode resultar em algumas medidas cosméticas, mas mantém intacta a estrutura do sistema capitalista-estatista, que no Brasil perpetua o cenário de milhões de pessoas na miséria, o genocídio no campo e nas periferias, o racismo, o machismo e outras opressões.
O crescimento da extrema-direita se dá em meio a décadas de política de conciliação com os inimigos de classe, o que borrou as diferenças ideológicas entre esquerda e direita, além do aprofundamento do neoliberalismo, que exige formas de governo mais agressivas para assegurar a exploração da força de trabalho. Mesmo o governo Lula-Alckmin, depois da vitória eleitoral sobre o bolsonarismo, adota parte do programa derrotado, com medidas como o arcabouço fiscal, que reduz gastos sociais para beneficiar banqueiros e especuladores, por meio do pagamento da rolagem da dívida pública.
O foco nas eleições conduz as lutas e a participação popular nos processos de decisão a uma posição marginal na política, muitas vezes atropelando o processo autônomo de organização dos movimentos. Para nós, anarquistas, a construção do socialismo só se fará com o acúmulo de força social das classes oprimidas, em um projeto revolucionário e comprometido com o fim das opressões. Por isso nossa aposta é na construção e fortalecimento de movimentos populares combativos, com independência de classe, que abandonem a ilusão na farsa eleitoral e que avancem num projeto de poder popular autogestionário.
Texto originalmente publicado no Libera 181 (set-dez de 2024).