Mais três clientes para o “lixo da história”
“Dizem que em algum lugar do além, em outra dimensão, existe um antro chamado Bar-Restaurante Lixo da História”. Assim começava a primeira notícia da chegada de novos clientes para essa pocilga fétida, publicada no Libera #54, em novembro de 1995. Naquela oportunidade, anunciávamos a chegada de Plínio Correa de Oliveira, fundador da organização fascista-católica TFP (Tradição, Família e Propriedade) e do repórter e deputado Amaral Netto, grande baba-ovo e colaborador da ditadura militar. Durante décadas o Libera anunciou a chegada ao vil estabelecimento de inúmeros crápulas, tais como ditadores sociopatas, repressores do povo, fascistas hediondos, corruptos pervertidos e facínoras de todos os tipos. Dessa vez, a chegada foi tripla! A administração do “Lixo da História” teve que reforçar o estoque de petiscos e bebidas para o deleite da escumalha sórdida. Em menos de um mês deram as caras por lá, nada mais nada menos que, Antônio Delfim Netto, Silvio Santos e Alberto Fujimori!
No dia 12/08 entrou triunfalmente no Lixo da História o ex-ministro da ditadura Antônio Delfim Netto, que se dirigiu imediatamente a uma mesa onde lhe esperavam sôfregos os generais Costa e Silva, Garrastazu Médici e Lira Tavares. Delfim Netto foi um dos signatários do famigerado Ato Institucional no 5 (AI-5) em 13/12/1968, além de ministro da Economia, da Agricultura e do Planejamento do governo militar, entre 1967 e 1978. Durante seu reinado na área econômica brasileira, como um “superministro”, ficou conhecido pelas gordas comissões de 20% que recebia sobre os negócios estatais, que o tornaram riquíssimo, junto com os “Delfim boys”, seu staff de jovens economistas inescrupulosos. No governo general Geisel (1974-79), Delfim foi “exilado” em Paris como embaixador do Brasil, sendo acusado de receber propinas nas negociações de empréstimos com os bancos franceses. É atribuída a ele a frase “É preciso fazer o bolo crescer para depois dividi-lo”. Obviamente, o “bolo” não foi dividido, tendo os mais pobres ficado ainda mais pobres e os mais ricos muito mais ricos. Foi ainda deputado federal entre 1987 e 2003, sempre por partidos de direita, tendo terminado sua trajetória como um prestigiado colaborador dos governos do PT, tendo recebido de Lula vastos elogios após desencarnar.
No dia 17/09, a calma do vasto salão do Lixo da História foi quebrada pelo estrepitoso jingle “Silvio Santos vem aí, lá lá lá lá laiá”. O conhecido apresentador e empresário adentrou o recinto de braços abertos e envergando seu sorriso histriônico, distribuindo carnês do Baú da Felicidade a embasbacados ditadores genocidas africanos de uma mesa próxima. Silvio Santos foi um estreito colaborador da ditadura militar, assim como seu concorrente Roberto Marinho, tendo se beneficiado enormemente desse apoio nos anos mais duros daquele período. Em 1972, foi agraciado com uma gorda benesse do governo do Mato Grosso (MT) ao comprar em condições muito favoráveis 70 mil hectares de terra na região do Araguaia. O SBT (Sistema Brasileiro de Televisão) surgiu em 1981 a partir das relações de SS com o então Ministro da Aeronáutica do governo Figueiredo, Brigadeiro Délio Jardim de Matos, seu antigo colega da Escola de Paraquedistas. “Figueiredo me deu a televisão”, disse SS em 2018. No governo Bolsonaro, em troca de verbas para o SBT, SS prestou todo o apoio ao Genocida e sua “familícia”, tendo inclusive retomado em 2020 o ridículo programa “A Semana do Presidente”, criado na ditadura, tão somente para bajular quem estava no poder. SS foi alvo de diversas acusações de racismo, censura, corrupção, machismo e sexismo ao longo de sua longa trajetória na superfície do planeta, sendo que no Lixo da História temos a certeza de que ele se sentirá em casa com seus novos “colegas de trabalho”.
E para fechar essa pequena procissão de novos clientes, finalmente deu as caras no Lixo da História o ex-presidente peruano Alberto Fujimori, despachado de sua existência terrena no dia 11/09, devido a um justíssimo câncer na língua. Logo ao entrar, tentou sentar-se à mesa dos ditadores sulamericanos, mas não foi autorizado por não ser milico. Foi salvo pelo Imperador Hiroito, que o convidou para a mesa dos genocidas japoneses da II Guerra Mundial. Fujimori foi presidente do Peru entre 1990 e 2000 e, após dois anos de mandato, promoveu um autogolpe com apoio irrestrito das Forças Armadas, tendo fechado o Congresso e a Suprema Corte, passando a governar por decretos. Durante seu governo, mais de 200 mil mulheres pobres da região andina foram esterilizadas à força, bem como foram perpetrados inúmeros massacres contra opositores políticos, camponeses e civis, como o de Barrios Altos (15 mortos), Santa (9 mortos) e La Cantuta (9 mortos), cometidos pelo grupo paramilitar Colina, composto principalmente por militares do Exército peruano. Por esses crimes contra a humanidade, o degenerado foi condenado a 25 anos de prisão, dos quais cumpriu 16. Sofreu diversas acusações e processos por peculato, suborno, enriquecimento ilícito, falsidade ideológica e como mandante de sequestros, torturas e assassinatos, ou seja, um prontuário totalmente adequado para um cliente VIP do Lixo da História, cujas portas seguem abertas para receber a escória da humanidade.
Texto originalmente publicado no Libera 181 (set-dez de 2024).