Nosso posicionamento frente ao cenário eleitoral e a necessidade de organização para a luta de classes
1. O avanço da extrema-direita e os limites da disputa eleitoral
O avanço da extrema-direita não é novidade; no entanto, estamos diante de um processo que se tornou mais visível no período eleitoral. Sua força não pode ser compreendida apenas pelo resultado das urnas, pois expressa transformações sociais, econômicas, políticas e ideológicas que atravessam o cotidiano das classes oprimidas. O crescimento de suas ideias e organizações revela também os limites da capacidade de organização, mobilização e enraizamento social da esquerda nos locais de trabalho, nos bairros e nos movimentos populares.
A extrema-direita está presente nesses locais. Ela cresce em espaços onde o sofrimento social, a insegurança econômica e a ausência de perspectivas coletivas são convertidas em ressentimento, preconceito e hostilidade contra outros setores oprimidos.
O crescimento da extrema-direita também evidencia a insuficiência da capilaridade da esquerda e sua dificuldade em acompanhar as experiências, os conflitos e as transformações que atravessam a vida da classe trabalhadora.
Diante desse cenário, independentemente do resultado eleitoral, entendemos que é necessário focar na organização de uma força social capaz de enfrentar a extrema-direita, defender os direitos da classe trabalhadora e construir alternativas ao capitalismo que não se restrinjam a episódios simbólicos e midiáticos. Não podemos depositar nossas esperanças na vitória de um candidato ou na estabilidade das instituições burguesas. A experiência histórica demonstra que as eleições, por si mesmas, não garantem nem a derrota do autoritarismo nem a conquista de transformações estruturais. Desde o golpe de 2016, é notório o avanço conservador autoritário e, dez anos depois, os setores majoritários da esquerda, sob o comando do Partido dos Trabalhadores, agem como se, a cada derrota, isso fosse uma novidade, quando, na realidade, são corresponsáveis pelo que estamos vivendo.
Foi exatamente prometendo muito e entregando pouco que o PT iludiu a população com promessas de melhorias profundas na realidade social que nunca se concretizaram. Quaisquer partidos de esquerda que priorizem a disputa institucional estão fadados a repetir o caminho da conciliação de classes, rifam as mudanças estruturais e adequam suas políticas a mudanças pontuais dentro do “possível”. Ao mesmo tempo, esse tipo de estratégia do campo democrático-popular desarma parte da classe trabalhadora, iludindo-a de que as mudanças pelas quais ela anseia serão conquistadas pelo voto.
Quando afirmamos que as eleições são uma farsa, criticamos um sistema político que restringe a participação popular à escolha periódica de representantes, deslocando a capacidade de decisão das mãos da população para as instituições do Estado. A disputa eleitoral desmobiliza as classes oprimidas ao apresentar a representação parlamentar como alternativa à organização coletiva.
Sabemos que, mesmo em contextos econômicos e políticos favoráveis, como nos primeiros governos Lula, a manutenção estrutural do capitalismo-estatismo e a subordinação do nosso país ao imperialismo limitaram qualquer avanço significativo em políticas sociais ou reformas, mantendo a desigualdade, a exploração e a subordinação dos trabalhadores aos interesses das classes dominantes, e fazendo com que as condições do avanço conservador permanecessem intactas.
Isso não significa ignorar a importância concreta dos resultados eleitorais ou as diferenças entre os projetos em disputa, mas esses projetos sempre estão dentro do que a burguesia aceita como conveniente como opção em dado momento. E a realidade não é definida mecanicamente pelo calendário eleitoral. O processo de acumulação capitalista, a presença conservadora no tecido social, o avanço ideológico da extrema-direita nas forças armadas e policiais, o crescimento do poder cultural das denominações religiosas neopentecostais e o fortalecimento do imperialismo na América Latina definem o resultado das eleições, antes mesmo da apuração oficial. Quem ganhar terá de dançar conforme a música.
2. Antifascismo sem subordinação eleitoral
Reconhecemos a existência de uma vontade real de mobilização antifascista entre diferentes setores da sociedade. Essa disposição precisa ser acolhida e fortalecida, e não combatida por uma postura sectária ou indiferente. Embora tenhamos críticas à histórica centralidade atribuída às eleições, não seremos um fator de desmobilização daqueles que se colocam contra a extrema-direita através das eleições.
Nosso compromisso é contribuir para que essa energia social ultrapasse os limites da campanha eleitoral e se transforme em força organizada, permanente e independente, e que não fique restrita ao republicanismo burguês. O sentimento antifascista pode abrir caminhos para a reorganização da esquerda socialista, desde que não seja reduzido à defesa de candidaturas, governos ou alianças institucionais.
Por isso, não participaremos de atos ou comitês cuja pauta seja exclusivamente eleitoral, sem compromissos concretos com as necessidades da classe trabalhadora. Não basta convocar a população para impedir a vitória de determinado candidato quando não se apresentam propostas de enfrentamento à precarização do trabalho, aos instrumentos neoliberais do teto de gasto, à retirada de direitos, à desigualdade, ao racismo, ao machismo e ao abandono das periferias.
Não confundimos a unidade necessária para enfrentar a extrema-direita com a adesão política a um governo ou candidato, sobretudo quando seu programa político beneficia as classes dominantes. A unidade deve se construir em torno de reivindicações concretas, da mobilização popular e da defesa dos direitos, preservando a independência das organizações dos trabalhadores.
3. Nem bolsonarismo, nem silenciamento das críticas ao governo
Repudiamos o bolsonarismo, expressão central dos setores mais violentos e reacionários da direita brasileira, comprometidos com o autoritarismo, a opressão e a defesa dos privilégios das classes dominantes. Seu enfrentamento é uma necessidade política e social.
Entretanto, discordamos daqueles que afirmam constantemente que não é hora de criticar o governo Lula-Alckmin. É justamente neste momento que precisamos falar a verdade às classes oprimidas sobre como chegamos até aqui. Não podemos passar anos denunciando as medidas neoliberais, as alianças com setores dominantes e os limites das políticas governamentais para, durante a campanha eleitoral, suspender essas críticas em nome de uma suposta unidade contra um mal maior. O povo segue vivendo sob um custo de vida alto e com precariedade nos serviços públicos; cresce o endividamento das famílias, há baixa oferta de empregos qualificados, os trabalhos precários se multiplicam e as promessas de revogação da reforma da previdência e da reforma trabalhista se esfumaçaram na conciliação petista.
Essa postura cobra um preço alto: contribui para afastar as bases populares que continuam precarizadas, exploradas e abandonadas pelo Estado. Também reforça a ideia de que os trabalhadores devem suspender suas reivindicações e silenciar suas críticas sempre que um governo apresentado como progressista for ameaçado eleitoralmente.
A subordinação a uma candidatura significa assumir, ainda que indiretamente, a responsabilidade política pelos problemas que levaram à desorganização da classe trabalhadora e à perda de referências coletivas de luta. Significa aceitar que a defesa do governo se sobreponha à construção de uma alternativa independente. E não se trata de uma questão moral, mas de como as classes oprimidas enxergam esse atrelamento.
O assédio moral eleitoral, a pressão pelo voto e a tentativa de constranger quem critica o governo de forma organizada têm como objetivo reforçar a hegemonia do reformismo dentro das esquerdas e silenciar quaisquer perspectivas revolucionárias, qualificando-as como utópicas ou irresponsáveis.
Quando o PT e seus aliados procuram monopolizar a representação da esquerda e deslegitimar qualquer crítica, contribuem para sufocar o debate político e enfraquecer a pluralidade necessária à reorganização das forças populares.
O combate à extrema-direita não exige silêncio diante do governo. Exige que sejamos capazes de enfrentar, simultaneamente, o autoritarismo reacionário e as políticas que mantêm a exploração e a precarização da vida, pois são essas políticas que criam as condições para o fortalecimento da extrema-direita. Enquanto a extrema-direita renovou sua juventude, abraçou as ideias mais radicais do seu campo e abriu espaço para o mais diferente mosaico de expressões políticas reacionárias, a esquerda majoritária apenas garante espaço para quem se subordina às orientações do núcleo duro das direções petistas, sufoca a renovação e criminaliza as ideias mais radicais, tratando seus grupos como inimigos.
4. A extrema-direita não será barrada pelas instituições burguesas
A extrema-direita não tem compromisso incondicional com as instituições democráticas burguesas. Quando dispõe de força social e condições políticas para romper os pactos institucionais, pode fazê-lo independentemente de quem ocupe a Presidência da República.
Por isso, é uma ilusão acreditar que a simples vitória eleitoral de uma candidatura seja suficiente para neutralizar as forças reacionárias. As instituições podem impor limites circunstanciais a determinados projetos, mas não substituem a ação coletiva das classes oprimidas. Tampouco são neutras diante dos interesses econômicos e políticos que estruturam a sociedade capitalista.
O que pode efetivamente barrar o avanço conservador é a existência de uma classe trabalhadora organizada, consciente de seus interesses e capaz de mobilizar sua força econômica e social. Isso exige sindicatos combativos, movimentos populares enraizados, organizações independentes e espaços permanentes de formação e participação política.
A resistência não pode depender da disposição de parlamentares, ministros, tribunais ou dirigentes partidários. Precisa estar sustentada na capacidade de organização e ação direta da população. Na capacidade de fechar uma via, de fazer um piquete, de realizar uma paralisação no local de trabalho e de prejudicar os financiadores da extrema-direita.
5. A extrema-direita se enfrenta na realidade cotidiana das classes oprimidas
Quando afirmamos que a extrema-direita se enfrenta nas ruas, não utilizamos uma palavra de ordem vaga. Estamos afirmando que sua derrota depende de uma organização cotidiana, capaz de disputar ideias, construir solidariedade e responder coletivamente aos problemas concretos da população.
Precisamos reconstruir nossa presença social, escutar as bases, compreender as razões pelas quais determinados setores se aproximam de discursos reacionários e disputar politicamente esses espaços. Isso inclui, por exemplo, enfrentar o crescimento de lideranças e discursos de direita entre as próprias classes oprimidas, sem tratar esse fenômeno como uma contradição inexplicável, ignorância ou reduzi-las a um bloco político homogêneo.
Não basta denunciar manifestações reacionárias nas redes sociais ou através de ações parlamentares: é preciso construir solidariedade concreta, ampliar o diálogo nas bases e desenvolver instrumentos capazes de enfrentar essas ideias no cotidiano. A disputa ideológica não será vencida por campanhas episódicas ou pronunciamentos de dirigentes. Será resultado de uma presença organizada e permanente, vinculada às necessidades reais da população.
6. Poder popular autogestionário e reorganização da esquerda brasileira a partir do princípio da independência de classe
Quando defendemos o poder popular autogestionário, estamos propondo uma mudança de prioridades. Em vez de concentrar esforços na ocupação de cargos e espaços institucionais, precisamos priorizar a construção de organizações de base autônomas, democráticas e independentes de qualquer governo, partido eleitoral ou interesse empresarial.
Não haverá transformação social efetiva se a população continuar delegando a outros a tarefa de decidir os rumos de sua própria vida. Isso implica fortalecer assembleias, comitês de local de trabalho, organizações comunitárias, coletivos populares etc. Implica também combater as burocracias que concentram decisões, afastam as bases e transformam as organizações em instrumentos de interesses particulares.
Independência de classe não significa isolamento. Significa construir alianças a partir dos interesses e das decisões dos trabalhadores, sem subordinação a governos, partidos ou setores das classes dominantes.
É essa força social organizada que pode barrar avanços conservadores, defender direitos e criar condições para transformações que ultrapassem os limites do sistema político e econômico existente.
7. Organizar é mais do que convocar: precisamos oferecer instrumentos de luta
Nosso posicionamento é direcionar forças para todas as iniciativas que contribuam concretamente para a autodefesa popular, a mobilização por direitos e a reorganização da esquerda socialista brasileira, sempre preservando a independência de classe.
Não podemos repetir indefinidamente a palavra de ordem “Organize-se e lute” sem oferecer espaços, instrumentos e orientação para que as pessoas possam fazê-lo. A organização não nasce espontaneamente de um apelo. Ela exige estruturas acessíveis, presença cotidiana, formação política, solidariedade material e mecanismos democráticos de participação.
É necessário romper com as práticas burocráticas de setores do sindicalismo e dos movimentos populares que afastam as bases, restringem a participação e concentram as decisões nas mãos de dirigentes. As organizações devem estar a serviço das lutas, e não as lutas a serviço da preservação das organizações ou de seus dirigentes.
A médio prazo, defendemos que todas as centrais sindicais e os movimentos populares abram suas sedes, assembleias e instâncias de decisão à participação efetiva da classe trabalhadora. É necessário transformar o atual sentimento antifascista em força social organizada, oferecendo espaços para discussão, formação, planejamento e ação coletiva.
Hoje, uma parcela significativa da classe trabalhadora encontra enormes dificuldades para se organizar. A terceirização, a informalidade, a fragmentação dos locais de trabalho e a precarização das condições de vida dificultam a construção de vínculos coletivos. Ao mesmo tempo, muitos moradores dos bairros não encontram organizações populares abertas e permanentes nas quais possam ter participação.
Se não oferecermos respostas concretas aos trabalhadores, continuaremos deixando a população à própria sorte, reduzida à condição de indivíduo isolado que vota a cada dois anos e enfrenta sozinho os problemas cotidianos. Ou, na pior das hipóteses, jogar os trabalhadores para se organizarem e lutarem por pautas reacionárias ligadas à extrema-direita. Precisamos construir uma esquerda presente onde a vida acontece, capaz de organizar os que hoje estão dispersos e de transformar a indignação em ação coletiva.
8. Reorganizar a esquerda a partir das bases e das lutas concretas
O avanço da extrema-direita também nos obriga a fazer uma autocrítica. Se não compreendemos suficientemente o que está acontecendo em amplos setores da sociedade, isso revela a distância entre nossas organizações e a realidade vivida pelas classes oprimidas.
Não podemos explicar esse processo apenas pela manipulação ideológica, pela desinformação ou pelas escolhas eleitorais individuais. É necessário investigar as condições materiais, os vínculos comunitários, as relações de trabalho, as experiências com os serviços públicos e as expectativas políticas que ajudam a explicar o crescimento de posições reacionárias.
Isso exige abandonar a política nichada e sectária, superar a disputa permanente por protagonismo entre organizações e reconstruir uma presença social capaz de dialogar com a diversidade da classe trabalhadora. Exige, também, enfrentar as opressões de gênero, raça e outras formas de dominação sem separá-las da exploração e da dominação de classe e da necessidade de uma transformação social abrangente.
A reorganização da esquerda socialista não pode consistir apenas na formação de novas siglas, na disputa por espaços eleitorais ou na reprodução das mesmas práticas burocráticas sob novas denominações. Deve criar condições para que os trabalhadores se reconheçam como sujeitos políticos, construam suas próprias organizações e participem diretamente das decisões que afetam suas vidas.
Nosso horizonte é uma esquerda socialista, libertária, combativa e enraizada nas bases, comprometida com a ação direta, a democracia de base, o federalismo, a solidariedade e a autogestão.
9. Frente ao segundo turno das eleições presidenciais, nossa posição
Não existem soluções simples para deter o avanço da extrema-direita. Não será uma candidatura, um governo ou uma instituição que, isoladamente, no curto espaço de uma eleição, resolverá um problema que se desenvolve nas relações sociais, nas condições materiais de existência e na desorganização política das classes oprimidas.
Por isso, não colocamos nossas esperanças na representação parlamentar, tampouco aceitamos que o antifascismo seja utilizado para exigir silêncio, disciplina eleitoral ou subordinação política daqueles que são críticos ao petismo ou não acreditam na farsa eleitoral. Seguiremos ao lado dos movimentos sociais e populares nas lutas concretas por direitos, melhores condições de vida e defesa das liberdades, independentemente de quem ocupe os governos.
Não participaremos de iniciativas exclusivamente eleitorais que não apresentem compromissos efetivos com essas lutas. Ao mesmo tempo, estaremos dispostos a construir a unidade necessária para enfrentar a extrema-direita sempre que ela se materializar, em mobilizações, ações de solidariedade e resistência concreta que tenham pautas em defesa das classes oprimidas.
Nossa tarefa é transformar a indignação em organização, o sentimento antifascista em força social e a resistência imediata em perspectiva de emancipação. Para isso, precisamos fortalecer os instrumentos de luta da classe trabalhadora, abrir as organizações populares à participação das bases e construir uma alternativa socialista independente dos governos e das classes dominantes.
Organização Socialista Libertária
Outubro de 2026