O Libera segue vivo e passa a ser o jornal da Organização Socialista Libertária – OSL

Os jornais operários e anarquistas sempre tiveram um papel fundamental na crítica socialista, anticapitalista e antiestatista, bem como no fortalecimento dos processos de luta popular em que os libertários estiveram envolvidos. Nesse sentido, o Libera, jornal anarquista fundado em junho de 1991 no Rio de Janeiro, é uma continuidade histórica dos jornais anarquistas das décadas anteriores. Criado por militantes do Círculo de Estudos Libertários (CEL), um espaço anarquista fundado em 1985, também no Rio de Janeiro, o Libera surgiu com a tarefa de difundir as atividades do CEL e fortalecer os laços entre os/as anarquistas, até então muito dispersos, quando recém saíamos de uma longa ditadura militar.

Na década de seu surgimento, o Libera foi um importante instrumento para a reorganização do anarquismo no Brasil e em sua disposição de vincular o anarquismo às lutas populares. No início, o periódico chamava-se Libera… Amore Mio (nome escolhido pelo saudoso companheiro Pedro Kroupa) em referência ao filme italiano de 1975 dirigido por Mauro Bolognini, que se passava na Itália fascista, tendo como protagonista a atriz Claudia Cardinale no papel de Libera Valente, uma mulher forte e corajosa que não suportava o fascismo. Enquanto informativo mensal do CEL, o Libera, além da programação semanal do espaço, divulgava as lutas anticapitalistas e as mobilizações sociais, possibilitando conectar anarquistas de diferentes estados, numa tentativa embrionária de articulação nacional ainda no início dos anos 1990. Era um período de avanço do neoliberalismo e de crise do socialismo, mas também das lutas contra as privatizações e do surgimento de inúmeros coletivos e espaços anarquistas.

Foi de 1995 em diante que o Libera passou a divulgar a experiência da Federação Anarquista Uruguaia (fAu) e ajudou a difundir o especifismo, até então desconhecido no Brasil, cuja primeira organização adepta foi a Federação Anarquista Gaúcha (FAG), fundada em novembro de 1995. Foi neste período que o Círculo de Estudos Libertários alterou seu nome para Círculo de Estudos Libertários Ideal Peres (CELIP), em homenagem ao militante falecido em 16 de agosto daquele ano. Entre o final de 1995 e início de 1996, foi lançada a proposta da Construção Anarquista Brasileira, uma plataforma organizacional que tinha como objetivo “criar, no curto prazo (de 1996 a 2001), (…) instâncias específicas do anarquismo como força política organizada (…), em nível local, micro-regional e estadual” (OASL/FARJ, Elementos para uma reconstituição histórica). A difusão dessa proposta passou a influenciar parte do anarquismo brasileiro, que adotou a linha de um anarquismo combativo, classista, inserido nas lutas populares e com forte compromisso político-militante.

Reconstrução da proposta de organização anarquista nacional

A partir dos anos 2000, o anarquismo especifista brasileiro se estruturou em torno do Fórum do Anarquismo Organizado (FAO), que em 2012 se desenvolveu no projeto político da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB). É nesse contexto, entre idas e vindas, que a Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), a Rusga Libertária de Mato Grosso, a Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL) de São Paulo e o Coletivo Mineiro Popular Anarquista (COMPA) de Minas Gerais se firmaram e se estabeleceram.

Porém, completados 10 anos da CAB, essas quatro organizações optaram por seguir um caminho diferente. Os detalhes e motivos para a saída da Coordenação estão expostos em outro texto, que poderá ser lido mais adiante. O que importa dizer aqui é que, em 2022, encerraram sua participação na construção da CAB e, em conjunto com mais algumas individualidades e grupos de outros estados, decidiram avançar para uma nova etapa.

Fundação da OSL

Depois de um longo processo de debate, as organizações OASL, FARJ, RUSGA LIBERTÁRIA e COMPA, reunidas em instância congressual, fundam a Organização Socialista Libertária (OSL) e adotam o Libera como jornal oficial da nova organização. Essa decisão é um reconhecimento público da importância do Libera para o anarquismo organizado e o especifismo no Brasil. O Libera é o jornal mais longevo da história do anarquismo no Brasil e segue agora sendo continuado por militantes de diferentes gerações, irmanados num projeto de organização nacional, cujo compromisso com o socialismo, o classismo e a liberdade passa a ser o elo de ligação entre passado, presente e futuro. A partir desse número, o Libera será o periódico oficial da OSL e seguirá divulgando as lutas sociais, reforçando o anticapitalismo, o antiestatismo e a necessidade de uma revolução social que destrua o capitalismo, o racismo e o patriarcado e construa o autogoverno popular dos trabalhadores e trabalhadoras.

Nosso jornal, o Libera, representará essa mudança de linha e avanço organizativo, que esperamos contribuir para o caminho da revolução social brasileira, anticapitalista, antiestatista, socialista e libertária!

VIDA LONGA AO LIBERA! VIVA A OSL!

Texto originalmente publicado no Libera 179 (jun-ago de 2024).