Operações policiais deixam rastro de sangue pelo país

Cerca de 30 pessoas foram mortas pela Polícia Militar de SP em uma megaoperação policial, que teve início em Guarujá, e se espalhou por outras cidades da Baixada Santista. A megaoperação vem na sequência da morte de um policial, no final de julho. O massacre levou um clima de terror às comunidades da região, onde vive a classe trabalhadora mais precarizada. Matanças recentes no Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco demonstram como o Terrorismo de Estado segue em prática no País, independentemente do governo de turno.

No litoral de SP, a chamada “Operação Escudo” espalhou um clima de terror desde o fim de julho. Moradores das comunidades denunciam execuções sumárias de pessoas desarmadas, parte delas com passagem pela polícia ou pelo sistema prisional. Sob a gestão do governador Tarcísio de Freitas, o caso é o maior massacre policial do estado de SP desde os Crimes de Maio de 2006, quando, sob o pretexto de combater o crime organizado, policiais mataram mais de 500 pessoas, sendo a maioria jovens negros e moradores das periferias. Daquele trágico episódio, nasceu o movimento Mães de Maio, que objetiva organizar as famílias de vítimas do Estado na busca por verdade e justiça.

No Rio de Janeiro, em apenas um dia, a PM matou dez pessoas no Complexo da Penha, no começo de agosto. O governo de Claudio Castro alegou combater uma facção criminosa. Ainda em agosto, três crianças e adolescentes foram mortos, em um intervalo de uma semana, em comunidades do Rio: Thiago, de 13 anos, Wendell, de 17, e Eloáh, de apenas cinco. No caso de Thiago, a própria Corregedoria da PM desmentiu a versão dos policiais de que tivesse havido um tiroteio, e acrescentou que os PMs podem ter plantado uma arma com o adolescente. Em setembro, uma ação da Polícia Rodoviária Federal matou Heloísa, de três anos de idade, com um tiro na nuca, em Seropédica, na Baixada Fluminense. Enquanto a menina ainda estava internada, pelo menos 28 agentes da PRF estiveram no hospital, numa tentativa de intimidação à família da criança.

Na Bahia, comandada pelo PT desde 2007, a PM matou ao menos 30 pessoas em uma semana, entre o fim de julho e início de agosto, também em supostas operações de combate ao crime organizado, em Salvador e cidades vizinhas. Mais mortes se seguiram nas semanas seguintes, e devem manter a Bahia como o estado com mais mortes cometidas pela PM no país. Inclusive as polícias civis e federal têm participado de “operações” com mortes nesse período.

Todas essas mortes em um intervalo de algumas semanas são mais um episódio do fracasso da Guerra às Drogas. Prática que, na verdade, é uma guerra à classe trabalhadora que vive nas periferias, em grande maioria negra e precarizada, que, sob a visão do Estado, precisa ser controlada. Além da gravidade das execuções em si, que aumentam a violência nas comunidades, as mortes impactam no dia-a-dia desses territórios, com a imposição de um clima de medo, a suspensão de aulas e do trabalho. Toda essa repressão não atinge os centros de financiamento e produção das drogas. Tratam-se de operações midiáticas, que servem apenas como demagogia eleitoreira, para estimular o ódio e a violência contra as periferias. Também demonstram que a lógica brutal da PM se espalha por outras forças, como polícias civis e federais.

A derrota de Bolsonaro nas urnas não abalou a estrutura violenta e racista do Estado brasileiro, com a PM sendo a principal ferramenta de controle da classe trabalhadora mais explorada pelos detentores do capital e do poder. É preciso radicalizar as demandas pela ampliação de direitos sociais e denunciar a violência cotidiana da polícia. É fundamental apoiar os movimentos de denúncia da brutalidade policial, na luta pelo fim da Guerra às Drogas e pela extinção da Polícia Militar! A cada ano que passa, presenciamos episódios de massacres protagonizados pelas forças de repressão do Estado, deixando claro que não se tratam de episódios isolados, mas sim um processo histórico e estrutural. Por isso, além das manifestações populares de denúncia, é necessária a construção de organismos de autodefesa popular das classes oprimidas, que sejam acionados para fazer frente a essas investidas. Não podemos confiar na neutralidade do Estado, pois a repressão é fruto de seu monopólio da violência, instrumento de manutenção do poder das classes dominantes.

Texto originalmente publicado no Libera 179 (out de 2023).