Uma grande operação policial cercou os complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, e resultou na morte de dezenas de pessoas, entre elas quatro policiais, nesta terça-feira, dia 28. Apesar de fontes oficiais falarem em 64 mortos, na manhã seguinte dezenas de corpos foram resgatados pela população e familiares, e o número de mortes pode ter atingido mais de 120, um recorde macabro na longa lista de chacinas promovidas pelas forças policiais do Brasil. Moradores relataram diversos corpos com marcas de torturas e execuções, como tiros na nuca, pulsos amarrados e facadas.
A fila de corpos expostos na Praça São Lucas, no Complexo da Penha, é a prova visceral da violência genocida que o capitalismo-estatismo exerce cotidianamente contra o povo negro e trabalhador. A chamada "Operação Contenção", longe de ser uma ação de segurança, revela-se como um massacre meticulosamente planejado, liderado pelo governador Cláudio Castro (PL) com o aval das classes dominantes racistas.
A operação prendeu em casa a população trabalhadora e fechou escolas, hospitais e vias da cidade, deixando estudantes e moradores sem poderem ir à escola e ao trabalho. Os efeitos de pânico na população visam justamente fornecer legitimidade para medidas excepcionais, recolocando as forças policiais como protagonistas políticas. A ação nada tem de improviso: é parte da política genocida e de guerra promovida pelo bolsonarismo e seus aliados.
A falácia da guerra às drogas
A guerra às drogas é um argumento recorrentemente utilizado para a promoção desse tipo de violência estatal, que na realidade tem como objetivo a repressão brutal e indiscriminada contra a população pobre e negra. Assume ares de combate ao narcotráfico, mas só atinge o varejo. Enquanto isso, grandes empresários do tráfico estabelecem seus esquemas de venda de drogas e armas nas fronteiras — sob guarida e participação das forças armadas e policiais — sem serem incomodados ou reprimidos.
A tática de guerra do Estado é clara: aterrorizar as comunidades para consolidar seu controle sobre os territórios periféricos. Uma verdadeira guerra aos pobres, ferramenta para disciplinar as classes oprimidas e manter a ordem de exploração capitalista, sem reprimir quem de fato lucra com o narcotráfico.
O massacre como tática eleitoral
A ação das forças policiais também tem um forte componente eleitoreiro. Prepara o terreno para a campanha, tanto no campo da propaganda como no domínio de território, ao visar conter a expansão de determinadas facções que avançaram em comunidades da zona oeste (um reduto eleitoral central nas eleições municipais e estaduais), em benefício da manutenção dos currais eleitorais dominados pelas milícias. Ao fazê-lo, o governador garante o controle territorial no contexto pré-eleitoral e fortalece o apoio dessas áreas à sua aliança política. Foi com o apoio de diferentes caudilhos políticos, vinculados aos territórios controlados pela milícia, que Cláudio Castro garantiu sua última eleição para governador.
A questão da segurança pública é um dos problemas que mais incomodam a população, e a ação policial violenta encontra eco em vários setores da classe trabalhadora. O terrorismo estatal das forças policiais é mobilizado como instrumento populista de "resposta" a um sentimento legítimo, que é a sensação de insegurança e medo, mas medidas como essa estão distantes de resolver qualquer problema.
Toda essa situação é promovida pelas condições estruturais do capitalismo-estatismo, que produz um exército de reserva pronto para ocupar o varejo comandado pelos grandes empresários do narcotráfico (todos eles vivendo fora das comunidades e favelas) e seus aliados no interior das câmaras e assembleias legislativas, irrigando as campanhas políticas com dinheiro do tráfico de drogas ou da milícia. Enquanto o aparato estatal mobiliza milhares de agentes para invadir favelas, os que realmente lucram com o crime permanecem intocáveis em seus condomínios de luxo e escritórios do mercado financeiro da Faria Lima. A política de segurança é seletiva: criminaliza a pobreza e garante a impunidade dos de cima.
Disputas nacionais e internacionais
A operação também foi utilizada como forma de tensionamento e crítica ao governo federal e ao STF, por meio do desrespeito à Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635. A ADPF das Favelas, que tramita no Supremo, impôs regras às operações policiais, visando minimizar sua letalidade. A disputa intestina, dentro do aparato estatal, é uma disputa entre o terrorismo estatal indiscriminado, um tipo de estado de exceção defendido pelo bolsonarismo, e a guerra de baixa intensidade defendida pelo republicanismo burguês, do governo Lula-Alckmin e STF. Em ambos os casos, a guerra às drogas não é questionada — a discussão se resume à sua intensidade. Nenhuma palavra sobre a legalização das drogas ou a situação socioeconômica que organiza esse comércio por meio das estruturas do Estado.
Também cabe ressaltar a dimensão pró-imperialista do massacre, com a utilização do termo "narcoterrorista" pelo governador e seus aliados. Basta lembrar que o termo tem sido usado pelo governo de Donald Trump para justificar incursões bombardeios de barcos perto da costa da Venezuela e da Colômbia. Os EUA classificaram os cartéis de drogas como organizações terroristas. A adoção do termo por autoridades brasileiras pode abrir margem para que organizações militares estadunidenses tratem a situação como uma ameaça, e assim estabelecerem relações de cooperação com o bolsonarismo, com vistas a intervir no país. Isso abre a possibilidade do uso de medidas de contraterrorismo, com aparatos de inteligência e espionagem, forças especiais e aproximações militares em áreas de fronteira, como as que já ocorrem na Venezuela.
O massacre no Complexo da Penha não é um evento isolado, mas parte da mesma lógica de dominação e extermínio que estrutura a ordem capitalista e colonial global. A mesma doutrina que justifica a política genocida de Israel contra o povo palestino – onde um Estado militarizado ocupa territórios, desumaniza uma população inteira e a submete a um contínuo massacre de limpeza étnica – é a que orienta a ocupação policial nas favelas cariocas.
Estes são faces da mesma moeda: um capitalismo que, em crise, recorre a elementos do fascismo, do racismo e do militarismo para buscar manter seu domínio. Seja na Palestina ocupada, na Venezuela sob ataque econômico e militar ou nas favelas do Rio, o objetivo é o mesmo: garantir a acumulação de riqueza de uma minoria e aprofundar desigualdade social.
A chacina, portanto, é uma ação que combina diferentes dimensões: repressão aos territórios da população negra e pobre, fortalecimento do terrorismo de Estado e dos experimentos de exceção, controle eleitoral de redutos estratégicos, uso político de execuções como ferramenta de mobilização de um eleitorado conservador e de crítica ao republicanismo, e subordinação à estratégia imperialista no continente latino-americano.
Poder popular autogestionário contra o projeto de morte
Diante desta barbárie, fica claro que não basta apostar na neutralidade e bom senso das instituições do Estado. É necessário construir um poder popular autogestionário capaz de confrontar o próprio Estado, instrumento das classes dominantes, e seu projeto de morte.
Defendemos uma sociedade sem Estado e sem classes, onde a justiça social substitua a repressão, e onde o povo tenha o controle direto de suas vidas e territórios.
Por isso, é urgente ocupar as ruas em solidariedade ao povo das favelas do Rio de Janeiro, e fortalecer a resistência contra o avanço da violência e da política de extermínio das classes dominantes. É urgente a derrubada do governador Cláudio Castro!
CHEGA DE GENOCÍDIO!
PELO FIM DA POLÍCIA!
FORA CLÁUDIO CASTRO!
Organização Socialista Libertária
Outubro de 2025
