Relatos de uma jornada de luta sindical e popular

09 de maio de 2024, a segunda greve geral contra o governo de extrema direita na Argentina

“Companheiras e companheiros, sou Emilio Crisi, delegado sindical da Junta Interna da ATE (Associação de Trabalhadores do Estado, sindicato de servidores públicos nacional argentino) no município de Rosário (província de Santa Fé). Também sou membro da comissão diretora da seção sindical ATE Rosário e militante da Federação Anarquista de Rosário (FAR).

A forma de luta de hoje (09 de maio, segunda greve geral contra o governo de extrema direita de Milei e Cia.), teve bastante adesão e foi contundente. Em nível nacional foi quase total, apenas com algumas exceções, como em alguns comércios de bairros (como lojas, bares e restaurantes muito localizados), especialmente nas zonas periféricas dos principais centros urbanos. Outra baixa adesão foi em fábricas e unidades produtivas em locais mais afastados dos grandes centros, das grandes capitais de províncias. Nesses locais, os patrões mandaram abrir as portas das instalações através de ameaças, terrorismo patronal e pressão antissindical. A medida dos patrões foi ameaçar descontar o dia parado (pela greve geral) ou então, como é o caso das grandes redes de supermercados, oferecendo uma remuneração dobrada neste dia para quem não aderisse à paralisação e furasse a greve.

Houve também um número muito reduzido de trabalhadores que, infelizmente, decidiu ir trabalhar para quebrar a legitimidade da medida de força (a greve geral). Estes setores da classe têm, para dizer o mínimo, uma importante confusão ideológica e ainda aceitam o discurso do governo. Milei e sua gangue dizem que “é preciso trabalhar, não são necessárias greves e paralisações, é preciso garantir a reprodução do sistema econômico”. Desta forma acabam seguindo um pouco o plano de “governo” (ou não governo) do presidente eleito Javier Milei, que consiste em saquear os recursos naturais e coletivos; flexibilizar as leis de proteção ao trabalho (como na década de 1990) e aplicar políticas gerais muito semelhantes às da última ditadura militar.

Neste sentido, na zona de Rosário e da Grande Rosário — particularmente no cordão industrial da cidade vizinha de San Lorenzo – fizemos assembleias nas portas das fábricas para garantir que os/as companheiros/as trabalhadores/as não entrassem no trabalho. Em Rosário, fizemos um ato e uma concentração em frente a Bolsa de Comércio (a principal bolsa de commodities agrícolas e produtos de exportação da Argentina). Tivemos boa participação de distintos setores sindicais e populares.

Após, fizemos uma caravana em automóveis até a localidade de General Lagos, na porta da empresa transnacional Dreyfus. Ali acompanhamos uma assembleia intersindical das categorias presentes: servidores públicos; trabalhadores da soja (aceiteros), químicos, da indústria do sabão, metalúrgicos, marítimos, empregados da Justiça, movimentos sociais e alguns outros setores. Nessa assembleia intersindical foi aprovado aprofundar um plano de lutas, dentro das possibilidades das distintas categorias presentes.

O final da jornada foi no centro de Rosário. Nossos companheiros comerciários, dentro da Associação dos Empregados do Comércio, saíram em curtas passeatas pela zona central para conferir se as lojas e estabelecimentos comerciais estavam fechados. Desta forma, mediam força com a patronal que tentavam abrir seus negócios através de ameaças e bônus para os fura greves.”

Texto originalmente publicado no Libera 179 (out de 2023).