Haiti: A revolução negra que aboliu a escravidão e fundou a primeira república da América Latina

De uma ilha negra, um uma revolução popular de pessoas escravizadas fundou a primeira República Moderna na América Latina, num processo intenso de lutas que se estendeu de 1791 a 1804, e foram os pioneiros na abolição completa da escravidão na América.

Toussait L’Overture e Jean Jacques Dessalines lideraram o processo em que os trabalhadores haitianos combateram violentamente as elites coloniais francesas, após um acúmulo histórico de lutas de escravizados, mas especialmente após as convulsões sociais resultantes da Revolução Francesa (1789-1799), um dos processos populares mais importantes da nossa Era.

Os conceitos de cidadania e liberdade, tomados de forma radical, resultaram numa experiência de liberdade avançada para a época, inspirando diversos outros povos. No Brasil, experiências como a Revolta dos búzios (1798) e a Revolta dos Malês (1835) na Bahia e a Balaiada (1838) são apenas alguns exemplos de movimentos populares que se espelharam nos revolucionários haitianos.

A ilha sofreu diversas intervenções e embargos ao longo dos últimos dois séculos, como é característico de todo movimento contrarrevolucionário, o que causou diversos problemas econômicos ao país. Mas foi a partir dos terremotos em 2010 que a situação se agravou e o país entrou em estado de calamidade política e social.

A Missão das Nações Unidas para a estabilização do Haiti, a Minustah, liderada pelo exército brasileiro, interveio na ocasião supostamente para auxiliar o Estado haitiano, mas na prática seu papel foi nefasto: sob a justificativa de controle sobre bandos armados e criminosos comuns, tropas brasileiras cometiam abuso de poder, assassinatos e estupros sistemáticos contra a população da ilha. Nomes conhecidos da política brasileira atual como Tarcísio de Freitas e General Heleno comandaram tropas que produziam tais crimes. Tropas estas que, ao retornar ao país, foram usadas para constituir as Unidades de Polícia Pacificadora, as UPP, no Rio de Janeiro. Não à toa essa instituição também é alvo de inúmeras acusações de abuso de poder e violência policial.

Mas o povo haitiano segue organizando manifestações e revoltas populares desde 2018, entre idas e vindas, com bloqueios de vias, paralisações e barricadas auto organizadas, mantendo vivo o legado popular de luta por dignidade humana e liberdade.