Série ‘The Boys’ escancara sátira ao imperialismo
A série The Boys explora um mundo fantasioso, onde supercorporações desenvolveram um programa para produzir super-heróis que passam a ter grande poder numa sociedade norte-americana distópica, ultraconsumista e dominada por interesses políticos das elites. A série estreou em 2019 e teve a quinta e última temporada exibida no primeiro semestre de 2026. Ela é baseada na história em quadrinhos de mesmo nome, criada em 2006.
Subvertendo os clichês dos filmes de super-heróis comuns, a série apresenta os supers não como parâmetros de moralidade e exemplo ético, mas como figuras em sua maioria antiéticas, movidas pelos interesses do lucro, do establishment e meros peões de grandes corporações e elites políticas. A violência é exagerada e normalizada nessa sociedade distópica. Nesta última temporada, o elemento religioso também cumpre um importante papel.
Os super-heróis fazem parte da Vought International, uma gigantesca corporação que tem todos os direitos sobre eles. Nesse universo, o combate ao crime é um mero detalhe: os super-heróis estrelam propagandas, filmes e diversos outros produtos. O grande objetivo da Vought é poder usar os supers como armas militares, o que renderia à empresa um contrato bilionário com o governo imperialista dos EUA, por isso o lobby junto ao poder político é essencial. Vão se contrapor a eles a gangue The Boys, uma espécie de guerrilha liderada por Billy Bruto, formada para combater os super-heróis e revelar a corrupção da Vought e dos políticos.
A série pode ser vista pelos óculos anarquistas de Mikhail Bakunin, que dizia que o poder transforma os homens em “loucos orgulhosos” e que o “o poder e o hábito de comandar fazem com até o mais inteligente e virtuoso dos homens, uma fonte de aberrações, tanto intelectuais como morais”. A figura que representa com maior propriedade esse aspecto é o Capitão Pátria (Homelander), o super-herói que representa os valores reais das classes dominantes dos EUA: um conservador de extrema-direita, egóico, capaz de assassinar os “inimigos da pátria” e, ao mesmo tempo, preocupado com a sua auto-imagem. Mais trumpista impossível.
A semelhança com a realidade beirou o inacreditável quando Donald Trump publicou em sua rede social, em abril, uma imagem gerada por IA, em que ele aparecia trajado como Jesus Cristo, curando um homem doente. Dois dias depois, seria exibido o terceiro episódio da quinta e última temporada, em que Capitão Pátria acredita ter tido uma revelação, em que ele é Deus. O criador da série, Eric Kripke, em entrevista, brincou com a situação: “É muito difícil fazer uma sátira desse mundo”.
A ausência da crítica ao sionismo e a presença do ator israelense Tomer Capone, que interpreta o “Francês”, mostra que mesmo uma série crítica não consegue esgarçar os limites democratas de seu próprio contexto de produção. Ainda assim, vale assistir criticamente, sabendo que nenhum Capitão Pátria seria páreo para o poder popular autogestionário.