Mato Grosso: avançar com organização e luta para além das eleições de turno
Para entender o que está acontecendo (a conjuntura), é necessário pensar corretamente. E pensar corretamente significa ordenar e tratar, de maneira adequada, os muitos dados que são produzidos sobre a realidade. Pensar corretamente é condição indispensável para analisar corretamente o que está acontecendo em um país, em um momento dado da história desse país ou de qualquer outro.
Federação Anarquista Uruguaia (fAu), 1972
Para compreender a realidade, principalmente as possíveis transformações para o próximo período, é necessário seriedade na observação dos dados sobre os projetos que ditarão a dinâmica de funcionamento do Estado, e por consequência afetarão a classe trabalhadora. Compreender essa nova configuração possibilita traçar certas estratégias e táticas para as lutas no contexto do estado do Mato Grosso, onde parte dos políticos têm como centralidade desqualificar os serviços públicos, como na saúde e na educação, atacar a luta por terra e moradia com a política de “Invasão Zero”, arrancar o direito de sobrevivência de pescadores com a política de “Cota Zero” etc. Mato Grosso é vendido como uma grande potência produtiva do agronegócio, ao mesmo tempo que esconde, com propagandas maquiadas (com altos gastos públicos nas grandes mídias privadas), a precarização da vida, os altos índices de violência no campo e na cidade, o alto custo de vida (habitacional, energia, água e transporte e cesta básica) e o gritante favorecimento com verbas públicas ao setor privado (para gerir e interferir na saúde e educação), no setor agroexportador e demais setores exploratórios que destroem o meio ambiente na busca pelo lucro.
A configuração político-ideológica no Mato Grosso
Otaviano Pivetta, do Republicanos, continuará no comando do governo estadual, posto que ocupou assim que o ex-governador (por dois mandatos) Mauro Mendes saiu para disputar o Senado; Mauro Mendes (União) e Zé Medeiros (PL) ocuparão cadeiras no Senado; os deputados federais eleitos, desconsiderando os suplentes, foram Coronel Fernanda (PL), Professora Rosa Neide (PT), Fábio Garcia (União), Coronel Assis (PL), Virginia Mendes (União) – esposa do ex-governador Mauro Mendes –, Juarez Costa (Republicanos), Thiago Boava Hey Roy (PL) e o Coronel Roveri (PODE).
Na Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), a configuração por partidos ficou da seguinte forma:

Diante desse quadro, os setores progressistas e os que se colocam no campo revolucionário precisarão antecipar as formas de organização e luta para não seguir as pautas ditadas pelo andar de cima da institucionalidade – tentando “apagar incêndio” provocado pelas políticas reacionárias de precarização das condições de vida e de privatização dos serviços públicos essenciais para a sociedade. Para o funcionalismo público e a luta sindical estadual, o cenário segue alarmante em termos de carreira, salário e condições de trabalho.
Para uma caracterização mais imediata, podemos estruturar a ALMT dentro de três blocos: um bloco centro/centro-direita; um bloco liberal-conservador; e um terceiro social-ambiental. Em outras palavras, o primeiro bloco pode ser classificado como o “centrão”, o segundo está (e reivindica) o termo de extrema-direita, já o terceiro pode ser alocado ao que chamamos de social-liberal ou (neo)liberal progressista – para uma melhor compreensão desta última categorização que usamos, ler nosso material Análise de Conjuntura de Médio Prazo (1985-2024). Apesar das diferenças, os três blocos podem convergir em determinadas discussões e propostas.
O bloco majoritário, centro/centro-direita, tem como principais pautas/bandeiras propositivas em torno de logística (relacionada à produção agroexportadora do estado), repasses orçamentários para os municípios e o desenvolvimento regional. Essas políticas giram em torno de políticas de isenções e beneficiamento para os grandes produtores locais. A produção de commodities é alvo de grande atenção por parte do governo e dos deputados do legislativo estadual. A própria campanha do governador teve como parte de seu projeto a manutenção e aperfeiçoamento de políticas de isenções fiscais para o setor – as principais giram em torno do Programa de Desenvolvimento Industrial e Comercial de Mato Grosso (Prodeic), o Programa de Desenvolvimento Rural de Mato Grosso (Proder) e o Programa de Incentivo à Cultura do Algodão de Mato Grosso (Proalmat), além de outras políticas como a Lei Kandir e o FETHAB – que há décadas beneficia um pequeno setor que detém maior poder na produção e agroexportação. De 2019 a 2025, os cofres públicos de Mato Grosso deixaram de recolher algo em torno de R$ 65 bilhões, segundo dados do Tribunal de Contas do Estado do MT.
Ao mesmo tempo, o governo e sua base atacam direitos do funcionalismo público e não fazem o devido investimento na saúde e na educação, optando por favorecer setores privados e militares (como no modelo de gestão cívico-militar das escolas públicas) que acabam custando muito mais aos cofres públicos.
O bloco liberal-conservador, de extrema-direita, não foge da defesa indiscriminada do agronegócio, mas em seus discursos entram a defesa explícita de políticas neoliberais (privatizações, austeridades e combate ao imposto – Estado mínimo), pautas de fiscalização (maquiadas de discurso contra corrupção, seletividade e falso moralismo fiscalizador) e as pautas em torno dos costumes sociais e da moralidade. Contém em sua política ideológica e de organização da vida inúmeras bandeiras negacionistas e fascistas, desde o combate/extermínio da esquerda e de qualquer discurso progressista que visa ampliar direitos políticos, sociais e econômicos para a classe trabalhadora e setores historicamente oprimidos. É um setor que domina o mecanismo das redes sociais, tem respaldo do campo neopentecostal adepto da Teologia do Domínio (atualização da Teologia da Prosperidade), e um discurso entreguista à política imperialista dos EUA. Campo que replica, sem nenhuma vergonha, o mesmo slogan utilizado por Mussolini durante o fascismo italiano: “Deus, Pátria e Família”.
O último bloco, social-liberal ou (neo)liberal progressista, tem um projeto político com pautas voltadas à preservação ambiental – algo que pode ser lido como um certo “agronegócio social, ecológico e humanizado”, chega a debater a necessidade de taxar o agronegócio, e os problemas sociais e de saúde que o setor causa nas regiões com predominância do modo de produção exploratório. Coloca-se na defesa de direitos dos trabalhadores (com certo tom reformista de conciliação), pauta a defesa da saúde e educação pública estatal e, também, a necessidade de fiscalização das áreas sociais. Na análise de composição de forças, trata-se de um setor historicamente pequeno no estado e que, em várias ocasiões, opta pelo pragmatismo e conciliação que, ao mesmo tempo abraçados pelas direções sindicais estaduais e alguns movimentos sociais, levaram ao engessamento e perda de força nas mobilizações e tomadas de ações mais contundentes para garantir e avançar em novos direitos (econômicos, sociais e de condições de trabalho) do funcionalismo público estadual.
Tomando como ponto central as principais propostas/bandeiras defendidas, podemos retratar os blocos da seguinte maneira:

A seguir, tomando como análise as principais bandeiras dos deputados estaduais eleitos no estado, buscamos traçar as maiores e menores incidências em suas campanhas:

Uma leitura que é possível fazer é que ao tratar de serviços públicos (saúde e educação, principalmente) o pensamento dos deputados gira em torno de privatização e/ou Parcerias Público-Privadas (PPPs). A clássica verborragia de enxugar a máquina pública, os gastos do estado, ao mesmo tempo que o Mato Grosso segue aumentando políticas de isenção fiscal, investimento em setores privados de comunicação/propaganda e empresas privadas de formação e “otimização” de dados para operacionalização do sistema educacional e de saúde. Há a necessidade de uma outra investigação, principalmente sobre os gastos públicos com associações militares; setor que está dominando as escolas públicas via gestão Cívico-militar e, onde, um militar tem recebido salário muito maior ao de trabalhadores e trabalhadores da educação (tomando como comparação o salário de agente de pátio e professores) – neste momento, não adentraremos em maior atenção sobre isso.
O que está traçado, com toda certeza, é a continuidade de uma política de maior beneficiamento aos setores empresariais, ao agronegócio e demais setores privilegiados que lucram com os projetos políticos de precarização da vida. O funcionalismo público seguirá amargando cortes de investimento, congelamento salarial e precarização da carreira e das condições de trabalho; com a precarização e sucateamento do serviço público, é toda sociedade que sofre com a disponibilidade de serviços precários – sem estrutura e falta de trabalhadores. A população sofre com o aumento do ICMS e outras taxas que afetam com aumento da conta de luz, água, alimento, combustível etc., mas a camada privilegiada seguirá lucrando e nadando em isenções e investimentos público no privado – nunca no social.
Retomar as ruas com organização, independência de classe e combatividade
Os anarquistas compreendem que a transformação radical da sociedade, de forma emancipadora e autogestionária, só será possível com o aumento da força social das classes oprimidas em um projeto internacionalista. O fascismo deve ser esmagado, mas as urnas não são capazes de fazer isso. Seguiremos no combate ao fascismo, sem sectarismo, ao lado daqueles que querem votar ou não.
O anarquismo frente ao fascismo e ao debate eleitoral. <https://jacobin.com.br/2022/09/o-anarquismo-frente-ao-fascismo-e-ao-debate-eleitoral/> Publicado em 30 setembro 2022.
A alternativa à política institucional burguesa não é a apatia nem o autoritarismo. É a construção de formas de poder popular autogestionário que permitam aos trabalhadores e setores das classes oprimidas intervir diretamente sobre as decisões que afetam suas próprias vidas.
Esse poder não deve ser compreendido como a conquista do Estado, ou de algumas posições privilegiadas dentro dele. Trata-se de construir, a partir das bases, organismos de organização e decisão capazes de enfrentar o poder do capital e do Estado e, ao mesmo tempo, criar formas de gestão coletiva da sociedade.
Para além das ilusões eleitorais: reorganizar as classes oprimidas e construir o poder popular autogestionário. OSL, setembro de 2026
O Mato Grosso é repleto de históricas opressões e violências intensificadas pelas dinâmicas de colonização e exploração/destruição do meio ambiente, pela ideologia patriarcal, pelas práticas e discursos racistas e de extermínio da população indígena e negra/quilombola. Os altos índices de violência no campo e na cidade, contra crianças e adolescentes, mulheres e a população LGBT+, altos índices de feminicídio e brutalidades contra camponeses e indígenas na dinâmica de disputa territorial também fazem parte da realidade da região nas últimas décadas.
Mas resistem as pessoas que ousaram e seguem ousando se organizar e lutar em Mato Grosso. Várias foram as frentes de lutas fundadas no estado, alianças importantes para combater retrocessos e tentar avançar em novas conquistas, mas essas iniciativas começam a se desfazer sempre que se aproximam as eleições. É um fenômeno que se repete em outras regiões, e demanda o desafio de fazer avançar o enfrentamento contra as políticas neoliberais, reacionárias e de precarização da vida. É com organização, independência de classe e ação direta que se combate o fascismo.
A realidade do executivo e do legislativo mato-grossense exige fortalecer as lutas nas ruas, com organização coletiva e alianças combativas. Seja para avançar nos direitos à moradia, transporte, salário, condições de trabalho, investimento efetivo na saúde e educação, para combater a violência no campo e na cidade, como para combater o discurso reacionário da extrema-direita e os altos índices de violência de gênero, como também os discursos de criminalização da pobreza que vão ao encontro aos projetos de redução da maioridade penal, e limpeza dos centros urbanos sem política social concreta para a população em situação de rua e dependentes químicos.
No interior do estado e na grande baixada cuiabana, deve-se buscar transformar as lutas fragmentadas em força social organizada. Não podemos continuar seguindo a dinâmica de construir várias frentes de lutas que acabam em um curto intervalo de tempo. A luta sindical deve avançar, rompendo com o imobilismo e o engessamento causado pelas linhas conciliatórias, com independência de classe e combatividade para garantir melhores condições de trabalho, salários e saúde – não só para os trabalhadores do setor público, mas reivindicando reais investimentos para atender com qualidade e dignidade a população em geral. A luta sindical deve buscar aproximar outros setores do mundo do trabalho, trabalhadores terceirizados, precarizados, autônomos e do setor varejista, de forma a organizar toda classe trabalhadora que poderá sofrer com novos ataques a seus direitos. Unificar campo e cidade, a luta estudantil e sindical com as demais forças sociais que ousam lutar por moradia e melhores condições de vida.
A organização e combate antifascista devem se dar pelo enfrentamento organizado nos mais variados espaços em nossa sociedade. Se a extrema-direita usa da violência contra a nossa classe, ousemos resistir com força popular!