A América Latina dividida: Trump, multilateralismo, Sul Global e oligarquias

Depois que a delegação brasileira vetou o ingresso da Venezuela no bloco econômico dos BRICS, na conferência da Rússia (outubro de 2024) o mapa das lealdades políticas dos governos latino-americanos ficou mais fragmentado. 

A distopia da extrema-direita ocupa o Poder Executivo da Argentina (com Javier Milei), Equador (com Daniel Noboa) e El Salvador (com Nayib Bukele). Já os países com um perfil nacionalista, com lealdades junto à Rússia e China (alegando ser esse o antiimperialismo possível), são Cuba (presidida por Miguel Díaz-Canel), Nicarágua (do ex-sandinista Daniel Ortega e a 1ª dama que co-governa, Rosario Murillo) e a Venezuela (com o reeleito sob protestos Nicolás Maduro e seu gabinete militarizado); estes países citados se somam com Honduras (comandado pela presidenta Xiomara Castro) e a Bolívia (na crise interna no partido de governo, sob o comando de Luis Arce). 

Já numa posição mais associada à defesa da democracia liberal, com política econômica que deveria ser social-democrata, estão os seguintes países, apresentados aqui em ordem de pujança econômica e capacidade de propor políticas distributivas. Estão o México (da coalizão Morena, com a presidenta Claudia Sheinbaum); na sequência a Colômbia (onde Gustavo Petro enfrenta uma tentativa de golpe institucional apoiado pelos sionistas); surpreende o Chile (com o recalcitrante Gabriel Boric, garantindo aumento de salário e retomada de políticas públicas) e o Brasil (Lula 3, com índices de crescimento econômico mas sem mudança estrutural alguma). Nesta lista constam ainda a Guatemala (com Bernardo Arévalo, que quase não consegue tomar posse), e o Uruguai (com a vitória eleitoral da Frente Ampla, com Yamandú Orsi).

No grupo mais “tradicional”, onde as oligarquias governam para si alegando certa lealdade institucional, estão o Paraguai (com o banqueiro Sebastián Peña) e os governos centro-americanos da Costa Rica e Panamá. A “nova tradição” peruana é não conseguir formar governo em função do bloqueio parlamentar fujimorista e a metástase da Lava-Jato no país. Lá, Dina Boluarte (a vice do hoje preso político Pedro Castillo)  não manda nada e tampouco a derrubam.  

Com a vitória eleitoral de Donald Trump nos EUA, em 05 de novembro, e suas ameaças de deportação em massa de mais de 11 milhões de imigrantes ilegais (maioria absoluta de latinos), este quadro tende a se aprofundar ainda mais.

Texto originalmente publicado no Libera 181 (set-dez de 2024).