Filmes abordam lutas populares na América Latina

También la lluvia (2010) se passa em meio à guerra da água na Bolívia

Exibir filmes que ajudam a refletir sobre a realidade das lutas populares é o objetivo do CineCELIP, projeto do Círculo de Estudos Libertários Ideal Peres (CELIP), surgido nos últimos meses de 2024. Em São Paulo, as sessões de filme-debate acontecem no Espaço Antônia e Angelina Soares, no bairro do Bixiga. O projeto foi pensado como um momento de confraternização e formação coletiva, e os encontros buscam conectar o passado com o presente, para construir um debate sobre lutas sociais e seus desdobramentos contemporâneos. A proposta vai além da exibição de filmes; é um convite à análise crítica e inspiração para as lutas de hoje. A seguir trazemos as indicações de dois filmes já exibidos.

Un poquito de tanta verdad (2007)

O documentário Un poquito de tanta verdad, dirigido por Jill Freidberg, aborda a Revolta de Oaxaca, um levante popular que ocorreu no estado mexicano de Oaxaca em 2006. A produção mostra a luta da população, composta principalmente por professores e membros de comunidades indígenas, contra o então governador Ulises Ruiz, acusado de corrupção e repressão violenta. A narrativa é construída a partir de imagens capturadas durante os intensos protestos e ocupações de prédios públicos e emissoras de rádio e TV. A mídia, que inicialmente servia como uma ferramenta do governo para reprimir a oposição, torna-se um poderoso instrumento nas mãos dos manifestantes. Essa ocupação das ondas de rádio e TV é um ponto central do documentário, revelando como a comunicação se transforma em uma ferramenta  de resistência e mobilização.

Freidberg nos mostra um panorama da luta dos professores, que começa como uma greve por melhores condições de trabalho e, gradualmente, se transforma em um movimento mais amplo por justiça social e contra a repressão estatal. A força das imagens e depoimentos revela o sofrimento e a coragem dos manifestantes, que enfrentam a violência policial e militar.

O documentário destaca a importância das mídias alternativas na organização e disseminação de informações. Os protagonistas transformam as emissoras ocupadas em canais de comunicação direta com a população, rompendo o monopólio informativo do governo e da mídia convencional. Esse controle das mídias por parte dos manifestantes é um dos aspectos mais inspiradores, mostrando como a tecnologia pode ser usada para dar voz aos silenciados. Un poquito de tanta verdad é uma obra que traz à tona questões universais sobre a ação direta e a capacidade das classes oprimidas de se organizar e resistir diante da opressão; nos convida a pensar sobre o papel da mídia na construção das narrativas sociais e políticas e nos inspira a considerar o poder da mobilização coletiva em tempos de repressão.

También la lluvia (2010)

Dirigido por Icíar Bollaín, También la lluvia é um filme que explora a complexa relação entre história, política, estética e ética. A narrativa acompanha uma equipe de filmagem espanhola, liderada pelo idealista diretor Sebastián (Gael García Bernal) e pelo cínico produtor Costa (Luis Tosar), que viaja à Bolívia para rodar um filme sobre Cristóvão Colombo e a exploração dos indígenas durante a colonização. O roteiro estabelece um paralelo entre a exploração colonial retratada no filme que está sendo feito e a situação contemporânea na Bolívia, onde os habitantes locais enfrentam uma “guerra da água” contra a privatização desse recurso natural. A tensão aumenta quando Daniel (Juan Carlos Aduviri), um líder indígena que participa do filme, se torna um dos principais ativistas contra a empresa que controla a água na cidade de Cochabamba.

O filme questiona a interação entre ética e estética ao sugerir que a forma como a história é contada tem implicações morais. A insistência de Sebastián em finalizar o filme, mesmo diante da repressão violenta contra o povo em luta, levanta a questão: até que ponto o compromisso com a arte justifica a indiferença em relação ao sofrimento real? A arte pode realmente ser um agente de mudança social se os artistas ignoram os contextos e as vidas reais afetadas pelo processo de criação?

A solução não é simples, e o filme não oferece respostas fáceis. Em vez disso, También la lluvia nos força a refletir sobre a responsabilidade ética de quem narra as histórias, especialmente quando essas histórias envolvem dor e resistência. O compromisso estético de Sebastián com a verdade histórica parece desmoronar diante da verdade contemporânea dos bolivianos lutando pelo acesso à água. Ao final, a própria integridade do projeto cinematográfico é posta em dúvida, pois a narrativa do filme dentro do filme começa a parecer um espelho da realidade que o rodeia.

Em última análise, También la lluvia é uma reflexão sobre como a arte pode, simultaneamente, iluminar e obscurecer as questões de justiça social. O filme desafia a ideia de que contar histórias sobre o passado é suficiente se não estivermos dispostos a enfrentar as injustiças do presente. A interseção entre ética e estética, portanto, não é apenas um debate teórico no filme, mas uma questão de ação e responsabilidade concretas.

Texto originalmente publicado no Libera 181 (set-dez de 2024).