Editorial | A mudança não cabe nas urnas! Só a luta muda a realidade!
Em meio à disputa institucional entre os maiores partidos políticos para a definição de quem será o gestor do sistema político e econômico, as classes oprimidas seguem lutando pela sobrevivência e sem ver uma melhora de fato das condições materiais. Ao mesmo tempo em que o desemprego é baixo, o endividamento bate recorde. Os trabalhadores mais precarizados vivem no limite, sem referências de luta, enquanto o senso comum diz que são as eleições que podem mudar a realidade.
A polarização entre o campo do governo de Frente Ampla de Lula/Alckmin, de um lado, e a extrema-direita bolsonarista, de outro, acaba por mascarar o fato de que o centro do sistema de exploração e opressão permanece intocado. O abismo social entre ricos e pobres se mantém, assim como o aparato de repressão estatal, a violência espalhada por toda a sociedade, além da precarização das condições de vida e de trabalho. O Congresso segue profundamente conservador, a serviço das classes dominantes, e cada vez mais poderoso. Mesmo uma iniciativa que certamente iria melhorar a situação da classe trabalhadora, como o fim da escala 6×1, com amplo apelo popular, encontra grande resistência entre os detentores do poder. Enquanto isso, as lideranças dos movimentos mais consolidados depositam a confiança na institucionalidade e nas figuras partidárias, sem buscar construir uma força social à altura para impor essa conquista. Em nome de priorizar a disputa eleitoral para derrotar o bolsonarismo, as lutas de base são deixadas de lado, enquanto o bolsonarismo não foi derrotado.
A farsa eleitoral exerce uma força tão importante que mesmo os partidos da esquerda mais radical são sequestrados por essa lógica. Todo o aparato é mobilizado para as candidaturas, e os militantes passam a ter a campanha como missão principal. Nessa lógica, os movimentos de base ou são sequestrados pela disputa eleitoreira, empurrados para encarar o voto como a melhor forma de participação política, ou são simplesmente abandonados nesse período, enquanto os partidos têm outras prioridades.
Nossa leitura não significa deixar de lado a conjuntura política e econômica em que vivemos. Em um cenário internacional de muita instabilidade, o Brasil é alvo importante do imperialismo decadente dos EUA, que tem interferido no continente latino-americano, com apoio de setores das classes dominantes brasileiras. Mas para enfrentar tudo isso é preciso forjar um povo forte, mobilizado, com uma cultura de luta que vá muito além das instituições da falsa democracia burguesa, e avance para construir instrumentos próprios de gestão da economia e da sociedade como um todo.
A profunda desigualdade do país, a violência, o racismo, a misoginia e a lgbtfobia, o terrorismo estatal e a precarização do trabalho são fenômenos sistêmicos, que não serão solucionados num ciclo eleitoral. Melhorar de fato as condições de vida da classe trabalhadora é tarefa que exige uma estratégia de organização pela base, luta popular direta, o abandono da ilusão nos instrumentos da democracia burguesa, e a construção de métodos próprios de tomada de decisão e gestão da vida social.