Sobre a disciplina revolucionária – Nestor Makhno
Nestor Makhno foi um revolucionário anarquista ucraniano, que comandou o Exército Revolucionário Insurrecional da Ucrânia durante a Guerra Civil Russa e a Revolução Ucraniana, entre 1917 e 1921. O exército fazia parte do que ficou conhecido como Makhnovitchina, movimento das massas camponesas ucranianas, de inspiração anarquista, que distribuiu terras para a fundação de comunas libertárias, reorganizou a produção, combateu os czaristas e enfrentou o Exército Vermelho bolchevique. O seguinte texto foi publicado no periódico Dielo Truda nº 7-8, de dezembro de 1925 e janeiro de 1926. A publicação era editada pelo Grupo de Anarquistas Russos no Estrangeiro, na França, que meses depois seria responsável pela “Plataforma Organizacional da União Geral dos Anarquistas”, um dos principais documentos da corrente organizacionista do anarquismo. Tradução provavelmente de Danielle Sales, a partir da versão em espanhol. Revisão e preparação de Felipe Corrêa.
Alguns camaradas me perguntaram como entendo a disciplina revolucionária. Vou lhes responder.
Compreendo a disciplina revolucionária como uma autodisciplina do indivíduo, estabelecida num coletivo atuante, de maneira igual para todos, e rigorosamente elaborada. Ela deve ser a linha de conduta responsável dos membros desse coletivo, induzindo a uma concordância estrita entre sua prática e sua teoria.
Sem disciplina na organização – a vanguarda da revolução* –, é impossível empreender qualquer ação revolucionária séria. Sem disciplina, a vanguarda revolucionária não pode existir porque, em estado de desordem e desorganização, ela é incapaz de formular as tarefas do momento, de cumprir o papel iniciador que dela esperam as massas.
Faço repousar essa questão sobre a observação, a experiência e sobre os pré-requisitos seguintes.
A Revolução Russa tinha um conteúdo que, em muitos aspectos, era essencialmente anárquico. Se os anarquistas estivessem firmemente vinculados no plano organizativo e tivessem observado em suas ações uma disciplina bem determinada, não teriam jamais sofrido uma derrota tão profunda.
Mas como os anarquistas “de todas as posições e tendências” não representavam, mesmo em seus grupos específicos, um coletivo homogêneo, com uma disciplina de ação bem definida, não puderam suportar o exame político e estratégico que lhes impuseram as circunstâncias revolucionárias.
A desorganização conduziu os anarquistas à impotência política, dividindo-os em duas categorias.
A primeira foi a dos que se dedicaram à sistemática ocupação das residências burguesas, nas quais se alojaram e passaram a viver para seu próprio bem-estar. Eram aqueles que chamo de turistas, diversos anarquistas que vão de uma cidade para outra na esperança de encontrar um lugar para permanecer algum tempo, levando a vida comodamente e desfrutando o máximo possível do conforto e do prazer.
A segunda foi a dos que romperam todos os laços honestos com o anarquismo (ainda que alguns deles, na URSS, façam-se passar agora como os únicos representantes do anarquismo russo) e aceitaram avidamente os cargos oferecidos pelos bolcheviques, no momento mesmo em que suas autoridades fuzilavam os anarquistas que permaneciam fiéis ao seu posto de revolucionários e denunciavam a traição dos bolcheviques.
Diante desses fatos, compreende-se facilmente porque não posso continuar indiferente ao estado de despreocupação e negligência que existe atualmente em nossos meios. Isso vem impedindo a criação de um coletivo em que todos aqueles que aderiram ao anarquismo sem compreendê-lo a fundo, que morreram há tempos pela causa do anarquismo, ou que, falando do anarquismo, de sua unidade, de sua ação contra o inimigo, perderam-se no momento da ação, poderiam estar representados, numa luz diversa que permitiria que tivessem posições mais adequadas. É por isso que falo de uma organização anarquista fundada no princípio da disciplina fraterna.
Tal organização conduziria ao acordo indispensável de todas as forças vivas do anarquismo no país e ajudaria os anarquistas a ocupar seu justo lugar na luta do trabalho contra o capital.
Somente assim as ideias anarquistas poderiam conquistar as massas e não se empobrecer. Apenas os falastrões vazios e irresponsáveis fugiriam diante de tal estrutura organizacional. E são aqueles que, por culpa nossa, têm quase dominado nossas fileiras.
A responsabilidade e a disciplina organizacionais não devem horrorizar: elas são companheiras de viagem da prática do anarquismo social.
*Trecho suprimido da tradução de Skirda ao francês e, consequentemente, daquelas que a tomaram por base. Distintamente da Plataforma, aqui a palavra russa utilizada é авангарде, ou seja, vanguarda. (N.E.)