Notas sobre a atuação da OSL na CSP-Conlutas após o VI Congresso Nacional
Entre os dias 18 e 21 de abril, realizou-se, em São Paulo, o VI Congresso Nacional da CSP-Conlutas, espaço importante de debate político e organizativo para os setores sindicais e populares classistas e independentes no Brasil. A Organização Socialista Libertária (OSL) participou do Congresso apresentando posições que, embora não tenham sido encaminhadas na forma de uma contribuição global ou proposta de resolução, foram divulgadas parcialmente por meio de um manifesto conjunto elaborado com o Grupo Libertação Popular (GLP) e apresentado em uma roda de conversa realizada após as atividades congressuais. Além disso, a organização atuou politicamente nas articulações em torno da formação das chapas para a Secretaria Executiva Nacional.
A CSP-Conlutas e seu potencial
Para começar, é importante reforçar nossa compreensão de que a CSP-Conlutas possui um importante potencial enquanto instrumento de articulação dos setores combativos da classe trabalhadora brasileira e de construção de laços de solidariedade internacional entre povos e trabalhadores em luta.
Do nosso ponto de vista, entendemos a Central como uma ferramenta de organização, coordenação e fortalecimento das lutas das classes oprimidas, e não como um espaço subordinado à autoconstrução de organizações políticas. Em nossa opinião, seu fortalecimento depende fundamentalmente de sua capacidade de ampliar sua inserção real nas lutas concretas, incorporar novos setores sociais e fortalecer processos de organização desde a base.
Nesse sentido, consideramos que a CSP-Conlutas mantém características que a diferenciam no cenário sindical brasileiro. Destacamos, em primeiro lugar, sua independência de classe frente aos governos, aos patrões e às instituições do Capitalismo-Estatismo. Em um contexto marcado pela integração de grande parte do movimento sindical aos mecanismos de gestão institucional, a manutenção dessa independência constitui um avanço político das classes oprimidas que deve ser defendido e aprofundado.
Também avaliamos positivamente os principais eixos programáticos aprovados pelo Congresso, em especial a defesa da revogação das reformas trabalhista e previdenciária, o combate às privatizações, a oposição ao arcabouço fiscal e às políticas de austeridade, bem como a reafirmação do socialismo como horizonte estratégico.
No plano internacional, destacamos a unidade construída em torno da solidariedade ao povo palestino, da defesa da autodeterminação dos povos, da oposição às guerras imperialistas e da crítica às diferentes formas de dominação imperialista. Esses elementos constituem uma base importante para o fortalecimento de uma perspectiva internacionalista no interior da Central.
Divergências políticas e desafios estratégicos
Embora, em linhas gerais, compartilhemos boa parte do programa aprovado pelo Congresso no que é mais relevante, identificamos diferenças importantes no terreno da estratégia e da concepção organizativa.
A principal, vem da nossa análise que parte da compreensão de que o principal problema enfrentado hoje pela classe trabalhadora não é, fundamentalmente, uma “crise de direção”, mas um problema de orientação para a organização das bases. Enquanto grande parte das correntes presentes na Central tende a interpretar os desafios atuais como decorrentes da ausência de uma direção revolucionária capaz de conduzir as lutas, entendemos que a tarefa central do período consiste em reconstruir a capacidade de organização popular nos locais de trabalho, estudo e moradia, com uma orientação que não trate esses espaços como meros currais eleitorais, nos quais os indivíduos sejam pensados apenas como números destinados a chancelar políticas previamente definidas pelas direções.
Essa diferença produz consequências práticas importantes. Enquanto predomina, em muitos setores, a prioridade da disputa programática e da afirmação de projetos políticos no interior da vanguarda organizada, a OSL atribui maior centralidade à construção da unidade de ação, ao fortalecimento dos trabalhos concretos nas bases e à formação de uma força social organizada capaz de enfrentar efetivamente as classes dominantes.
Reafirmamos a importância da disputa política e o direito à manifestação das divergências. No entanto, quando isso se torna o ponto central da atuação das forças organizadas, entendemos que a consequência direta é o enfraquecimento da capacidade de intervenção organizada na luta de classes, seja na disputa de projetos com os setores orientados pela conciliação de classes, seja no embate direto com os inimigos de classe.
Essa posição está relacionada à distinção que fazemos entre o nível social /de massas e o nível político/partidário da luta de classes. Inspirados na tradição anarquista inaugurada por Bakunin e desenvolvida por diversas experiências históricas do anarquismo, entendemos que os processos de organização popular devem partir das necessidades concretas e imediatas da classe trabalhadora, criando condições para o desenvolvimento progressivo da consciência política.
Entretanto, observamos que parte significativa das correntes presentes na CSP-Conlutas tende a rejeitar essa distinção, identificando-a como expressão de economicismo, corporativismo ou de rebaixamento político. Na prática, isso frequentemente resulta na apresentação de palavras de ordem e formulações altamente radicalizadas em contextos nos quais ainda não existe força social organizada capaz de sustentá-las.
Trata-se de uma dinâmica que privilegia uma construção política de cima para baixo, isto é, das direções para as bases. Nossa perspectiva é inversa: construir a partir da experiência concreta das bases, desenvolvendo processos organizativos capazes de ampliar gradualmente os níveis de participação, consciência e combatividade.
O Congresso evidenciou um desequilíbrio recorrente entre radicalismo discursivo e capacidade efetiva de mobilização. Em muitos casos, a intensidade da retórica revolucionária não corresponde ao grau de inserção real nas categorias e movimentos. Isso tende a deslocar o centro da atividade política para disputas internas entre correntes organizadas pelas insígnias mais adequadas, enfraquecendo a construção unitária das lutas concretas.
Também identificamos uma tendência crescente de transformação da Central em um espaço marcado pela disputa permanente entre blocos políticos de correntes organizadas, em detrimento de seu papel como instrumento de articulação dos sindicatos, movimentos populares e organizações de base. Essa dinâmica pode dificultar a ampliação da CSP-Conlutas e limitar sua capacidade de dialogar com setores mais amplos da classe trabalhadora.
A atuação da OSL no VI Congresso
Nossa atuação durante o Congresso esteve orientada por esses princípios.
Mantivemos uma posição política independente, sem integrar blocos permanentes ou alianças estratégicas fixas com qualquer agrupamento presente na Central. Nosso compromisso principal permanece sendo o fortalecimento da própria CSP-Conlutas enquanto instrumento de luta da classe trabalhadora.
Foi a partir dessa compreensão que defendemos, durante o processo de eleição da Secretaria Executiva Nacional, uma composição que garantisse representação para todas as forças políticas que constroem a Central.
Entendemos que uma direção mais plural pode contribuir para ampliar o compromisso coletivo com a construção da CSP-Conlutas, distribuir responsabilidades de forma mais equilibrada e estimular a participação de setores que, de outra forma, permaneceriam restritos ao papel de oposição externa aos processos.
Nesse contexto, a existência da cláusula de barreira impulsionou uma aproximação tática com grupos minoritários durante a disputa pela composição da Secretaria Executiva Nacional. Essa aproximação não representou a formação de um bloco político permanente, mas expressou uma posição coerente com nossa defesa da ampliação da participação democrática e da distribuição das responsabilidades no interior da Central.
Perspectivas para o próximo período
O VI Congresso confirmou, simultaneamente, o potencial e os limites atuais da CSP-Conlutas.
A OSL reafirma seu compromisso com a construção de uma central classista, anticapitalista, internacionalista, democrática e autogestionária, independente dos governos, dos patrões e das burocracias sindicais.
Seguiremos defendendo a independência de classe, o combate simultâneo à extrema direita e ao campo democrático-popular, o fortalecimento da organização desde a base e a construção do socialismo libertário como horizonte.
Na nova etapa que se abre após o Congresso, manteremos nossa independência política em relação a todos os setores que compõem a Central. Seguiremos dialogando e construindo iniciativas pontuais com diferentes organizações sempre que isso, a partir do nosso ponto de vista, contribuir para fortalecer a CSP-Conlutas e impulsionar as lutas das classes oprimidas.
Defenderemos iniciativas que ampliem a participação democrática, descentralizem responsabilidades, fortaleçam os espaços de base e priorizem a ação concreta e o trabalho cotidiano de organização popular.
Entendemos que o futuro da CSP-Conlutas dependerá da capacidade coletiva de se afastar permanentemente de práticas burocratizantes e centralizadoras, ampliar sua presença nas lutas reais e construir força social organizada entre os trabalhadores e os setores oprimidos. Esse é, em nossa avaliação, o principal desafio colocado para o próximo período.
Organização Socialista Libertária
Julho de 2026