Para as barricadas companheiras e companheiros!

Texto lido na abertura do Congresso Anarquista Unificado

Publicamos abaixo saudação lida na abertura dos trabalhos da primeira sessão do Congresso Anarquista Unificado, envolvendo as organizações COMPA, FARJ, OASL e Rusga Libertária, realizado em São Paulo nos dias 08 e 09 de julho de 2023.

Companheiros e companheiras!

Este é um momento histórico do anarquismo brasileiro em geral, e do anarquismo organizado em particular. O Congresso que se inicia agora marca mais uma etapa fundamental em nosso projeto político.

Como toda a militância aqui presente sabe, assim como os companheiros e companheiras que permaneceram nos estados, esse projeto não é recente. Ele remete à reabertura posterior à ditadura militar, nos anos 1980, quando o anarquismo, restrito aos pequenos círculos quase clandestinos, começou a se rearticular. Nossos militantes mais antigos fizeram parte ou foram influenciados por esse movimento de rearticulação, que envolveu o Círculo de Estudos Libertários, no Rio de Janeiro; o Centro de Cultura Social, em São Paulo; a editora Novos Tempos, em Brasília; o jornal O Inimigo do Rei, na Bahia, além de outras inciativas.

Mas, sem dúvida, o marco mais importante nessa história foi nosso contato com a Federação Anarquista Uruguaia (fAu), em meados dos anos 1990, que deu um novo fôlego para parte considerável da militância brasileira e articulou um conjunto de jovens em torno daquilo que depois passaríamos a chamar de anarquismo especifista, ou, simplesmente, especifismo.

A fAu havia sido, nos anos 1960 e 1970, uma organização anarquista exemplar. Foi a única organização no Uruguai a intervir, num contexto de fechamento de regime, tanto na luta de massas (sindical, comunitária, estudantil) quanto na luta armada. As lutas avançaram significativamente, mas, com a ditadura e a enorme repressão que se seguiu, muitos militantes foram presos, assassinados e outros permanecem desaparecidos até hoje.

Dentre nós, atualmente, estão militantes que foram os principais difusores desse projeto anarquista no Brasil em sua origem. Na relação orgânica com a fAu, difundiram nacionalmente a proposta da Construção Anarquista Brasileira, utilizando para isso o mailing do periódico Libera – jornal que tem hoje a maior duração ininterrupta em toda a história do anarquismo brasileiro. Contribuímos diretamente com a fundação e com o fortalecimento de diferentes organizações anarquistas filiadas a essa corrente em várias partes do Brasil. Fizemos parte da OSL dos anos 1990, primeira tentativa de criar uma organização anarquista especifista de abrangência nacional no Brasil, e também das iniciativas que deram continuidade a ela: o Fórum do Anarquismo Organizado e, depois, a Coordenação Anarquista Brasileira.

Fizemos parte não somente do COMPA, da FARJ, da OASL e da Rusga Libertária, que agora encabeçam esse novo momento organizativo. Mas também da FAG, do Luta Libertária/ OSL São Paulo, do CABN, do CALC e de outras iniciativas semelhantes.

Contribuímos diretamente para tornar o especifismo brasileiro uma referência no país e no mundo. Nossa prática, nosso material de formação e divulgação não só fez desse anarquismo a maior corrente organizada do país, mas penetrou na América Latina, na América do Norte, na Europa, na África, e mesmo na Ásia e na Oceania.

No Brasil, entre erros e acertos, conseguimos colocar o anarquismo na realidade política e das lutas populares. Criamos e articulamos movimentos sindicais, comunitários, agrários e estudantis. Fomos conquistando respeito frente a outras correntes da esquerda combativa e revolucionária. Organizamos, organizamos, organizamos. Atualmente, de especifismo no Brasil, já são praticamente três décadas.

E não temos dúvida de que toda militância que aqui se associa nessa nova etapa, se mantém firme e consequente com o projeto especifista em particular e com o dualismo organizacional anarquista em geral, cujos paralelos com o plataformismo e outras concepções similares do anarquismo histórico são evidentes.

Como todos e todas aqui sabem, tivemos um período grande de desgastes nos últimos tempos antes de nossa saída da CAB. Quando resolvemos enfrentar questões que nos pareciam fundamentais, vieram os diversos conflitos e ficou evidente para nós aquilo que chamamos de “caminhos inconciliáveis”. Havia diferentes projetos dentro da coordenação, ainda que todos se reivindicassem “especifistas”.

Contudo, para nós, não era – e nem nunca foi – apenas questão de criticar. Queríamos realmente construir e avançar no projeto anarquista com o qual estamos envolvidos há décadas. Desejávamos uma organização nacional unificada, com os mesmos princípios, a mesma organicidade, a mesma estratégia e o mesmo programa, algo que começávamos a desenvolver em nossa antiga Regional Sudeste / Centro-Oeste, vendo que realmente havia possibilidades de avançar. Infelizmente, não foi a compreensão geral naquele momento, no entanto, sabemos que se constituir como organização específica requer unidade, e não é uma raridade que, quando a unidade não acontece, cada parte segue seu caminho, seu projeto. São caminhos diferentes que buscam o mesmo lugar: a liberdade, a igualdade, enfim, a revolução social! No entanto, não se avança nestes caminhos sem coesão.

Neste momento, é fundamental formalizar aqui os cumprimentos a todos e todas que mantiveram nossas atividades políticas e sociais em meio a todas as dificuldades que culminaram na cisão. Foram muitos problemas, muitas reuniões, muitas costuras. Um desgaste enorme para muita gente… Mas conseguimos superar com sucesso mais essa dificuldade, dar o passo necessário para podermos construir o futuro.

Foram muitas conversas nos acampamentos da greve dos professores municipais de SP, madrugadas escrevendo e lendo posições, finais de semanas em debates coletivos, reuniões cansativas de horas nos computadores em meio à pandemia; das reflexões sobre as incertezas em meio às ocupações de moradia em Minas Gerais, até aquele tempo escasso encontrado pra luta em meio as diversas tarefas da vida do trabalhador em Mato Grosso, no meio dos inimigos do agronegócio; dos piquetes e barricadas nas avenidas que cortam a favela em Guarulhos até os esforços de autodefesa nas praias da Baixada Santista; das vigílias na madrugada contra a repressão nas terras indígenas, às demissões e processos judiciais que tomamos por lutar em Bauru; da madrugada na prisão na greve geral de 2017 às madrugadas contando voto e panfletando para chapa de oposição no Centro. Das vitórias do movimento estudantil do interior de SP, até as derrotas coletivas das classes oprimidas. Nas leituras densas sozinhos, nas ruas batendo de frente contra a repressão e nas reuniões políticas defendendo nossa ideologia, estamos aqui vivos e prontos para mais uma etapa!

Nos últimos meses, também conseguimos um feito importante. Mantendo todos os nossos trabalhos, sem deixar a organicidade e os trabalhos sociais serem prejudicados, preparamos todo o material para esta sessão do Congresso e fizemos a discussão qualificada nos núcleos.

Devemos também formalizar aqui os cumprimentos, tanto àqueles e àquelas que trabalharam duramente para que este Congresso fosse possível, quanto àqueles e àquelas que mantiveram a organização funcionando e dispuseram de grande esforço para discutir coletivamente uma quantidade grande de material.

Agora, iniciando esta primeira sessão de nosso Congresso, daremos mais um passo nessa longa caminhada. Fundaremos nossa organização nacional, consolidando aquele antigo projeto concebido nos anos 1990, e que, entre fluxos e refluxos, teve continuidade nas décadas seguintes. Temos consciência que, mesmo com avanços importantes – e não temos dúvidas que eles aconteceram –, há ainda um enorme caminho para ser trilhado. Queremos com este Congresso fortalecer essa caminhada para que façamos avançar nosso projeto igualitário, libertário e revolucionário.

Já disse Durruti que trazemos um mundo novo em nossos corações. Desejamos que toda essa herança e nosso recente esforço contribuam para essa nova organização que surge neste momento. Que esta data seja um marco no fortalecimento desse novo mundo. Que ela fortaleça o projeto anarquista, socialista libertário, a causa da revolução social! Não pouparemos esforços para isso!

Viva o anarquismo!
Viva o socialismo libertário!
Viva o poder popular!
Viva a Organização Socialista Libertária!
Para as barricadas, companheiras e companheiros!